domingo, 20 de setembro de 2015

Nem com Reagan, nem com Soros e FHC


O Ferreira Gullar vem passando das velhas posturas do "partidão", o PCB, a posições em geral cada vez mais reacionárias em política. Mas num ponto, talvez porque a vida lhe deu um desses presentes inesperados, com dois filhos dependentes químicos e com sérios transtornos mentais, o velho poeta mantem um discurso coerente e, como ele mesmo diz, sensato. 

Mesmo que muitos me achem mal-humorado, ranzinza e ultra radical, não julgo ninguém a partir das suas posturas ideológicas em geral, ou políticas em particular. Aliás, nem julgo, apenas gosto, detesto ou ignoro. 

Mas uma mulher e um homem não podem falar, por exemplo, sobre repressão e ditadura sem nunca ter sentido em carne própria a falta absoluta de liberdade. Pode-se ler em livros e assistir a palestras, mas a sensação no corpo, no cérebro, não é a mesma. 

Pode-se opinar sobre drogas, a favor ou contra o uso, mas não é possível avaliar os danos profundos quando não se vê ao lado, ou na própria carne, as lesões, as feridas e a dor profunda que vive o dependente químico, escravo em qualquer classe social, mas sobretudo das capas mais sofridas da população, que entrega a sua liberdade e seu futuro nas mãos do traficante, soldadinho do último escalão de um sistema perverso, capitalista selvagem, que mata ou rouba por dinheiro, venha ele do tráfico de armas, mulheres, órgãos humanos, animais em extinção ou alucinógenos. 

O artigo do Gullar observa, embora ela não o diga dessa vez, desde o ponto de vista das famílias. Ele não fala de outra experiência pessoal que não seja a de ser pai de dois escravos da dependência química. 

Ser contra a guerra às drogas, ao estilo Reagan, não me leva a ser a favor da liberação geral. 

Ser a favor de descriminalizar o usuário não me obriga a apoiar o capitalista predador George Soros, o ultra-liberal FHC, ou os consórcios Ambev, Souza Cruz-Philips Morris, a Monsanto ou os grandes bancos internacionais que sonham com pegar das mãos dos traficantes de chinelo e Uzi o negocião das drogas ilegais. 

Educação preventiva e saúde pública para atendimento aos escravos dessa praga chamada uso-abuso e dependência. Esse é o tema, o eixo da polêmica e não guerra x liberação total. 

JV



Maconha legal 

Por Ferreira Gullar

Folha de SPaulo, 20 de setembro de 2015

Teríamos que desistir de combater a corrupção, uma vez que, após séculos de combate, ela continua

    A legalização do consumo da maconha tornou-se, sem qualquer dúvida, uma questão importante em vários países, inclusive no Brasil. Em alguns outros países essa legalização ou descriminalização já se deu, como no Uruguai e em Portugal, respectivamente. Aqui no Brasil, o Supremo Tribunal Federal debate descriminalizar o consumo da maconha.
    No meu ponto de vista, não é que essa descriminalização esteja errada, já que não me parece justo prender e muitos menos condenar quem consome drogas, seja maconha ou qualquer outra. No meu entender, a providência correta é a ajuda terapêutica para livrar o viciado do vício e uma campanha de esclarecimento pelos meios de comunicação e nas escolas.
    Há quem afirme que a maconha não provoca nenhum mal e, portanto, não é necessário tratar o usuário dela. Minha experiência pessoal, nesse terreno, é o contrário: a maconha é um alucinógeno e, portanto, conforme seja o indivíduo que a fume, as consequências tanto podem ser insignificantes como desastrosas.
    Conheço os dois tipos de consequências: gente que, fumando-a, sente-se relaxada, como outros, que perdem o controle e fazem qualquer coisa, como tentar estrangular a irmã ou jogar-se da janela do apartamento. Como tenho o mau hábito da sensatez, acho que o melhor mesmo é não arriscar.
    Digo isso porque, quando era garoto, levaram-me a experimentar a maconha. Dei uma tragada, achei-a desagradável e não aderi. Meu colega Esmagado, também não aderiu, mas o Maninho, que compunha a nossa trinca, achou um barato.
    Depois de tantos anos, eu estou aqui, modéstia à parte, saudável e trabalhando. Esmagado tornou-se craque de futebol, enquanto Maninho passou da maconha para a cocaína (o que costuma ocorrer), sumiu de casa e morreu, antes dos 40, depois de várias internações para livrar-se da droga.
    Quem defende a legalização da maconha alega que, como os muitos anos de repressão ao tráfico não acabaram com ele, a solução não é essa. Isso me parece mais um sofisma do que um argumento porque, se o aceitarmos, teríamos que desistir de combater a corrupção, uma vez que, após séculos de combate, ela continua.
    Por outro lado, nada indica que a legalização da maconha (ou das drogas em geral) acabará com o tráfico. Um exemplo: a venda de cigarros é legal mas o tráfico de cigarros continua apesar disso. O mesmo pode-se dizer do tráfico de pedras preciosas, cuja venda clandestina se mantém apesar da repressão. Por que, então, o tráfico de drogas, que movimenta milhões de reais, iria acabar? Não vejo razão para acreditar nisso.
    Mas tudo bem, a maconha vai ser legalizada, de modo que, a partir daí, o consumidor da erva poderá portar, sem problema, a porção de maconha necessária a seu consumo. Mas não uma quantidade que indique ter ele a intenção de vendê-la. Ou seja, consumo pode, venda não pode.
    Aí tenho certa dificuldade de entender: se a lei admite o uso da droga, por que então proíbe sua venda? Como justificar-lhe a proibição se a mesma lei considera seu consumo legal? Parece-me contraditório ou sou eu que estou pensando errado?
    Vejamos: se o Estado admite o uso da maconha, ele está inevitavelmente assegurando que ela não provoca mal algum ao usuário, mesmo porque seria um absurdo permitir o livre consumo, pela população, de algo que lhe prejudique a saúde física ou mental. Logo, para todos os efeitos, se o uso da maconha é legalmente permitido será porque nenhum mal ela causa. Mas, se é assim, proibir-lhe a venda não tem explicação.
    Ou tem? Uma explicação possível seria que os próprios legisladores não estejam certos de que o amplo consumo da maconha nenhum mal provoque à sociedade e especialmente ao pessoal mais jovem.
    Já imaginou se dezenas de milhões de jovens passarem a se drogar e, em vez de cuidar do futuro,de estudar e buscar uma profissão –entreguem-se ao barato da maconha que tem, como principal característica, deixar o cara desligadão dos problemas da vida?
    Não resta dúvida de que dói menos viver nas nuvens do que encarar a realidade. Sim, dói menos até o cara cair na real.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Orlov, a marca da traição. 1ª parte


Orlov, a marca da traição estalinista

Aleksandr Mijáilovich Orlov foi um militar e espião russo que, durante a Guerra Civil Espanhola, atuou como enlace do NKVD, a polícia secreta soviética. Foi o responsável pelo lado soviético no trasporte do denominado "Ouro de Moscou" de Madri até a União Soviética, e participou no assassinato do líder do POUM, Andreu Nin. Em 1938 desertou para os Estados Unidos, fugindo da purga estalinista dentro do NKVD; apesar da sua formação e atuação estalinista, ainda advertiu León Trotski sobre a iminência de seu assassinato pela burocracia estalinista que controlava com mão de ferro o estado soviético.

Em julho de 1936 Orlov foi enviado a Espanha como enlace do NKVD com o Ministério de Interior da Segunda República Espanhola. Chegou a Madri em 15 de setembro de 1936.
Um dia antes, em 14 de setembro de 1936, tinha acontecido uma reunião em Moscou, na Lubianka, para coordenar o envio de material de guerra a Espanha. Os envios de armas e de pessoal especializado ao cenário da guerra ficaria sob a supervisão do NKVD e o veterano membro da mesma, Aleksandr Orlov, que já estava destinado na Espanha, é confirmado como o oficial superintendente da operação. 
Segundo suas próprias declarações posteriores ante o Senado dos Estados Unidos, sua missão na Espanha era a de assessor em temas de "espionagem, contra espionagem e luta de guerrilhas". Porém, diferente do que se pensa, Orlov nunca supervisionou a atividade da guerrilha que operava durante a guerra civil por detrás das linhas franquistas, que foi organizada pelo seu colega da NKVD, Grigori Syroyezhkin.
Ao pouco tempo de chegar a Madri, em outubro de 1936, Orlov foi nomeado responsável pelo lado soviético do transporte do assim chamado "Ouro de Moscou" desde Espanha até a União Soviética. Por essa ação, Orlov foi premiado com a "Ordem de Lenin". Nas suas declarações ante o Senado dos E.U.A., ao referir-se à chegada do ouro à URSS, Orlov atribuiu a Stalin a frase "Os espanhóis não verão mais o ouro, do mesmo jeito que ninguém consegue ver suas próprias orelhas".
A tarefa principal de Orlov na Espanha, porém, consistiu em organizar e executar a purga aos dissidentes soviéticos, muitos dos quais estavam na Espanha como voluntários das Brigadas Internacionais. Os documentos recentemente desclassificados dos arquivos do NKVD revelam a longa lista de  crimes de Orlov na Espanha. Foi ele o responsável de falsificar as provas que levaram à detenção e desaparecimento dos líderes do POUM. 
O POUM -Partido Obrero de Unificação Marxista foi uma organização fundada em 1935, definida como marxista revolucionária em oposição ao stalinismo, e cercana ao comunismo de esquerda, ou Oposição Comunista. Era um partido da esquerda comunista não estalinista, e sua organização juvenil foi a Juventude Comunista Ibérica (JCI).
As provas das fontes históricas sugerem que Orlov dirigiu o sequestro e a execução do líder do POUM, Andreu Nin. Num relatório aos seus superiores em Moscou, datado de agosto de 1937, Orlov detalhava seu plano para a captura e eliminação do socialista austríaco Kurt Landau. Também desapareceram na Espanha Erwin Wolf, o antigo secretário de Trotski, e Mark Rein, filho de um líder menchevique, e ainda Orlov teve participação na desaparição do oficial russo e agente duplo do NKVD, Nikolái Skolb.
Em 14 de junho de 1937, já atuando como chefe do GPU (lembrar que o NKVD, ou Comissariado do povo para assuntos internos, criado em 1934, incorporou o GPU ou OGPU, ou Diretório Político Unificado do Estado, transformado em  Administração Central da Segurança do Estado) na Espanha, Orlov ordena a detenção de todos os dirigentes do POUM. O ministro da Justiça, Jesús Hernández, também comunista, informado pelo diretor geral de segurança, Antonio Ortega, se reúne com Orlov, que diz que o governo não deve conhecer essa ordem, uma vez que o ministro Julián Zugazagoitia era amigo dos prisioneiros, e que tinha provas de que estavam "em contacto com espiões fascistas". Hernández entrevista o dirigente comunista José Díaz Ramos que se enfurece ao receber a notícia. Enquanto isso são detidos vários dirigentes do POUM, entre eles Andreu Nin. Crê-se que Nin foi transportado até Alcalá de Henares, onde Orlov tinha sua prisão particular instalada na Catedra; Nin foi interrogado pelos soviéticos, torturado e assassinado no El Pardo.
Embora foi o principal oficial do NKVD na Espanha, Orlov negaria mais tarde sua participação nestes e muitos outros assassinatos realizados por oficiais do NKVD e seus agentes.

Boris Volodarsky, autor do livro "O caso Orlov", da editora Crítica, é um grande conhecedor das fontes historiográficas sobre a espionagem soviética e em particular, da trajetória de Orlov; o que, unido a sua experiencia como capitão nos serviços de inteligencia militar do exército russo, o faz ser um historiador de referência para conhecer os labirintos da influencia da URSS na Espanha. Há uma extensa bibliografia no livro e a quantidade e variedade de arquivos que Volodarsky consultou sobre o tema é enorme. Como ele diz respeito da capacidade de Stalin para recolher informação secreta de todos os governos europeus, outra coisa é o uso que se faz de toda essa documentação já que Stalin era incapaz de aproveitá-la pela sua forte tendência a focar  tudo sob a luz da conspiração.
Volodarsky oferece uma grande lista de agentes e instituições que enfiaram suas manos na guerra civil da Espanha, traça las hierarquias de e estabelece as conexiones de uns com as outras, desenhando um mapa completo da participação dos serviços secretos russos na península. O livro de Volodarsky é hoje uma obra fundamental de referência.
Porém, talvez influenciado pelos historiadores Paul Preston e Ángel Viñas, Volodarsky despreza a chamada "literatura do desencanto” dos renegados do velho comunismo espanhol, provavelmente por estar dirigida por Julián Gorkin, um poumista e fundador do comunismo ibérico que depois de uma longa tradição revolucionária, aparentemente terminou colaborando com a CIA. 
Num aparte sobre J. Gorkin, digamos que durante a Guerra Civil Espanhola se mudou para Barcelona para dirigir o jornal La Batalla, porta voz do POUM. Depois dos acontecimentos de maio de 1937 foi julgado e condenado por sua condição de dirigente do POUM, mas conseguiu fugir da cadeia pouco antes da chegada das tropas franquistas a Barcelona em 1939.
Em Paris continuou na política até 1940, quando foi ao México e virou um ativo colaborador de Víctor Serge, com quem  tentou uma reformulação do socialismo revolucionário e com quem publicou, junto com Marceau Pivert e Paul Chevalier, o ensaio Los problemas del socialismo en nuestro tiempo, editado em 1944. Esta colaboração se frustrou com a morte de Serge em 1947. Trasladado de novo a Paris em 1948, participou da fundação do Movimiento Socialista pelos Estados Unidos da Europa. Implicado desde o início na denúncia do estalinismo, participou na edição de dois livros de ex militantes comunistas espanhóis: La vida y la muerte en la URSS, de Valentín González "El Campesino" y "Hombres made in Moscú", de Enrique Castro Delgado. 
A partir de 1953 participou no Congresso pela Liberdade da Cultura (CLC) formado por intelectuais com um perfil político contrário aos comunistas, e dirigiu sua publicação para a América Latina na revista Cuadernos, até fevereiro de 1963. Alguns consideram como "instrumentos da CIA" a Gorkin e à publicação. A partir de 1965 dirigiu a revista Mañana. Tribuna democrática de España. Na década de 1970 militou no PSOE.
Cuadernos del Congreso por la Libertad de la Cultura, foi uma revista bimensal publicada em Paris entre 1953 e 1965 pelo Congresso pela Liberdade da Cultura (CLC), no contexto da Guerra Fria, destinada à leitura na América Latina. Com uma postura anticomunista e antissoviética, em suas páginas aplaudia o papel dos Estados Unidos, "seus valores de liberdade" e a "superioridade moral" de Ocidente. 
A seu favor, pode-se dizer que Julián Gorkin foi quem descobriu a verdadeira identidade do assassino de Trotsky, Ramón Mercader, identificado até então como Frank Jacson-Mornard, ao publicar em 1948 sua obra El asesinato de Trotsky. Escreveu uma autobiografia chamada El revolucionario profesional. Testimonio de un hombre de acción (1975). Na opinión do jornalista Federico Jiménez Losantos, Julián Gorkin foi "demasiado importante, demasiado honrado, demasiado livre para um país em que toda liberdade parece demasiada".

Mas, voltando a Orlov, o historiador Volodarsky diz que o espião foi um desastrado em suas primeiras missões na Espanha, relacionadas com a obtenção de informação secreta; parece que teve mais sucesso na segunda parte de "tarefas especiais", eufemismo para disfarçar os assassinatos. Suas vítimas não foram muitas, como sustentam alguns, mas sim as suficientes como para desmantelar o trotskismo e suas alianças na Espanha. 
Volodarsky afirma que Orlov trabalhava para Stalin e de modo algum em benefício da República, ou das organizações e partidos da esquerda, a não ser o próprio PCE. Embora esto pareça contradizer o fato de que uma das suas missões fosse ajudar na criação dos serviços de informação mais eficientes durante la guerra. Em todo caso, uma das teses do livro de Volodarsky é desmitificar a figura de Orlov, crescida e aumentada por ele mesmo nos livros que publicou e nas informações que dava, já como refugiado nos Estados Unidos. 
Quem era Orlov?
Lev Nikolsky -o nome verdadeiro do espião- operava na Espanha da Guerra Civil com o pseudônimo de Alexander M. Orlov. Nasceu numa família judia, na Bielorrússia, media uns 1,72 m, era atraente e tinha o típico nariz de um lutador de box, além de um bigode espesso e escuro. Falava um espanhol ruim, e por isso mesmo, sempre andava acompanhado pelo seu intérprete pessoal. Em setembro de 1936, Nikolsky tinha 41 anos e chegou a Espanha desde Moscou para fazer o trabalho sujo da burocracia fiel a Stalin en la República, contra os possíveis inimigos da União Soviética. O mais conhecido de todos foi o assassinato de Andreu Nin, o líder do POUM -Partido Operário de Unificação Marxista-, pequena organização, aliada fiel do anarquismo revolucionário, onde se concentrava a Oposição ao estalinismo, trotskista ou não.
“Foi um espião de uma inteligência muito medíocre que falhou em todas as suas missões de inteligência”, diz o historiador Boris Volodarsky, autor do livro "O caso Orlov", da editora Crítica, um estudo sobre a atuação dos serviços secretos soviéticos na Guerra Civil Espanhola de grande exatidão e de uma amplitude inédita. “Orlov nem sequer operava contra Franco, só fazia o trabalho sujo para Stalin”.
O agente chegou na Espanha para procurar, achar, espionar e liquidar os trotskistas e desarticular os seus principais aliados no anarquismo catalão. Essa era sua missão, que também executou em outros lugares da Europa. O historiador diz que entre suas vítimas estavam Dmitry Navashin, em Paris; Brian Goold-Vershoyle, sequestrado em Barcelona e que ​​mais tarde morreu num campo de prisioneiros na Rússia; Marc Rein, morto na Espanha; Hans Freund, Ignatz Reiss, fuzilados em Suiça), Kurl Landau, o general Skoblin, agente do NKVD morto em Barcelona; Georges Agabekov, um oficial de alta patente, que desertou e chegou na Espanha e logo foi assassinado, e o mais importante e impactante, o próprio Andreu Nin do POUM.
Continuará
Javier Villanueva. São Paulo, 8 de setembro de 2015.

domingo, 30 de agosto de 2015

Flora Tristán, fundadora del feminismo moderno



Flora Tristán, nacida en París en 1803 y fallecida en la misma ciudad en 1844, fue una escritora y pensadora feminista francesa de ascendencia peruana. 

Flora Tristán, fundadora del feminismo moderno

La abuela de Paul Gauguin es una de las fundadoras del feminismo moderno y, de hecho, la primera que imprime a su feminismo un concepto de lucha de clases sociales, lo que en el futuro daría lugar al llamado feminismo marxista. 

Sus ideas pertenecían al campo de lo que se  denominó el "socialismo utópico", pero en su práctica política y en sus escritos, Flora fue teorizando la necesidad urgente de una Unión Obrera, como confluencia de las clases trabajadoras, y también de un partido revolucionario de los trabajadores. 

Flora Tristán tuvo una vida que fue intensa y llena de azares  hasta su muerte a los tempranos 41 años, enferma de tifus, mientras propagandizaba a lo ancho y largo de Francia sus ideas revolucionarias. Aunque fue criada en la abundancia en sus primeros años de vida, pasó enseguida a la pobreza más absoluta, y sufrió malos tratos físicos y psíquicos por parte de su marido. 
Apoyada en su durísima experiencia de vida, Flora se reveló contra el sistema patriarcal de la Francia de aquel entonces e logró ser una mujer libre e independiente, en una época en la que las columnas del código napoleónico decretaban una eterna minoría de edad para someter a la mujer casada.

En su autobiografía,"Mi vida", Flora Tristán se describe como a una paria en doble medida, pues es la hija no reconocida legalmente por el padre, por lo que termina siendo además, desheredada; y a su vez, está casada por conveniencia, o lo que es decir lo mismo, por necesidad.

Flora se confiesa víctima de esa opresión doble que, como mujer, siente en con toda intensidad, todo lo cual la llevó a luchar contra la institución del matrimonio en el que veía un medio de opresión contra las mujeres, que era, como solía repetir "el único infierno que reconozco como tal".

La Unión Obrera

En el año de 1839 Flora Tristán entrega a su editor los originales de su "Paseos por Londres", que por el realismo cruel y la franqueza del texto, pinta escenas muy al estilo de Charles Dickens. Otros, críticos literarios y lectores de la izquierda, consideran esa obra casi como un anticipo de un libro que es fundamental en la teoría marxista, de Federico Engels, "La situación de la clase obrera en Inglaterra".

Flora cree firmemente, ya en esa época, que la verdadera y única salida para los grandes conflictos y desgracias de la humanidad -entre ellos los que enfrenta el feminismo- es la lucha por el socialismo. Y lo explica en su obra "La Unión Obrera", que publica en 1843. "El hecho nuevo básico de ese período es el desarrollo del proletariado". Las clases trabajadoras, y entre ellos los obreros industriales, pasan a ocupar desde allí en adelante un plano principal en los escenarios nacionales y en el internacional. Durante la Restauración, las burguesías nacionales no habían arreglado todavía sus viejas cuentas con la aristocracia terrateniente. Las burguesías de cada país tenían necesidad del apoyo de los obreros, algo que se notó en París en julio de 1830. 
La insurrección de los canudos lyoneses en 1831 le ha revelado que "los bárbaros acampaban en los suburbios de las ciudades manufactureras". Y ve que la represión es brutal. Pero no por ello la bueguesía logra el fin de los descontentos. Al contrario, el movimiento de los trabajadores está apenas en sus inicios. Se multiplican las sociedades obreras de socorros mutuos, que a menudo toman el carácter de "cámaras de trabajo y de resistencia", al capitalismo. Es en este momento de crisis y de encrucijada que "Flora Tristán -según escribe Jean Bouhat- lanza la idea de una unión obrera que reúna a todos los asalariados de Francia".

Y Flora no esconde sus posiciones "Con la Revolución (francesa) - escribe- la burguesía ocupó el puesto privilegiado de los nobles y ahora oprime al proletariado. Es preciso hacer girar la rueda de la evolución y desalojar a la burguesía de ese puesto de mando. El trabajador fue hasta ahora el brazo, en lo sucesivo será la cabeza".

Su retrato físico la muestra como a una linda mujer. Y en su obra notamos su fotografía moral, no menos seductora, así como la pinta con un carácter firme, empecinado y combativo. Nos muestra también el cuadro un tanto caótico de las Utopías y los sueños de un siglo XIX que empezaba a desilusionarse de la ya envejecida revolución burguesa.

Flora parece que va cazando las ideas que flotan y vuelan por el aire. Hace un esbozo en 1843 del pensamiento axial que Marx y Engels van a colocar en el centro de su Manifiesto Comunista cinco años después. Flora Tristán plantea, como una voz pionera, con total comprensión de fondo, que "la emancipación de los trabajadores será la obra de los propios trabajadores".

Si su nieto Gauguin decía que su abuela era una "mujer curiosa", a Flora no debemos considerarla como una adorable lunática o una fantasiosa magnífica. Flora Tristán fue una descaminadora de nuevos caminos, tan creadora en las áreas sociales y políticas como lo fue su nieto pintor que abandonó Europa y se sumergió en una sociedad lejana a la suya, buscando otro sentido a su arte y para toda su existencia. 
Flora insufló el proyecto de mudar el destino de las mujeres, como parte de un desafío más amplio y general. Se sentía parte de dos continentes, como latinoamericana y europea, como ciudadana y revolucionaria del mundo.

Flora Tristán, llegó nuestra América española después del fin del imperio español. A primera vista ya le saltó a los ojos que continuaba intacto un anacrónico esquema medieval, nacido de la matriz del atraso y el subdesarrollo, identificada con la colonia aun después de la caida de los Borbones. Repudia los juegos frívolos de esa sociedad. Ve que entienden su vida como un baile: mientras los siervos mueren fuera del salón, los caballeros siguen asaltando el Palacio de Pizarro, matando a los pobres cholos, cuyo genocidio seguía consumando a través de guerras, golpes, robos de tierras. Los indios, carne de cañón de golpes de estado, que siguen azotando a los pueblos y naciones latinoamericanos, no sabían por qué mataban ni por qué morían. 

Flora no es un personaje exótico y su imagen perdura como la de un ser apasionado, lúcido y valiente que anunció en la primera mitad del siglo pasado, antes que todas las otras, la emancipación femenina como parte de la liberación de todos los explotados.

Sus obras: “Peregrinaciones de una paria” de 1839 a 1840, es la memoria de su viaje a América y su permanencia en Perú entre 1833 y 1834.
”Paseos en Londres", de 1840,  en donde hace agudas críticas a la civilización británica y afirma "la esclavitud no es a mis ojos el más grande de los infortunios humanos desde que conozco el proletariado inglés".

En “La Unión Obrera”, de 1843,  un folleto en el que se sintetiza el ideario de Flora Tristán, ella expone su programa de reformas a favor de la clase proletaria; es una obra fundamental de la biblioteca de Marx, en la cual ella describe cómo "el mejoramiento de la situación de miseria e ignorancia de los trabajadores" es fundamental, porque "todas las desgracias del mundo provienen del olvido y del desprecio que hasta hoy se hizo de los derechos naturales e imprescriptibles del ser mujer". 

Para Flora la situación de las mujeres se deriva de la aceptación del falso concepto que afirma la inferioridad de la naturaleza de la mujer en relación a la del varón. Este discurso ideológico conservador, realizado y confirmado desde la ley, apoyado en la ciencia oficial más retrógrada y por la iglesia, margina a la mujer de una educación racional y la predispone a ser la esclava de su amo, el varón. 

Hasta aquí llega el discurso de Flora, que hasta entonces es similar al de las sufragistas, o mujeres que luchan a favor del voto femenino, pero ya en un giro de clase, que empieza a producirse cuando señala cómo negar la educación a las mujeres está en relación con su explotación económica. No se envía a las niñas a la escuela "porque se les saca mejor partido en las tareas de la casa, ya sea para acunar a los niños, hacer los recados, cuidar la comida, etc...", y luego "A los doce años se la coloca de aprendiza, y allí, en la fábrica, continúa siendo explotada por la patrona y a menudo también maltratada como cuando estaba en casa de sus padres.” 
Flora dirige todo su discurso hacia las mujeres más desposeidas y explotadas, a las obreras. Y su juicio no puede ser más directo e encisivo: el trato injusto y vejatorio que sufren las mujeres desde que nacen, unido a su anulación en la educación y a la obligada servidumbre familiar al varón, todo lo cual genera en ellos, los del sexo masculino, un carácter brutal e incluso malvado. 

Para Flora, esta degradación moral tiene una importancia máxima, ya que las mujeres, en sus múltiples funciones de madres, amantes, esposas, hijas, etc... "lo son todo en la vida del obrero", e influyen a lo largo de toda su vida. Esta situación central de la mujer no tiene sus equivalentes en las clases dominantes, donde el dinero permite proporcionar educadores y servidores profesionales, lo mismo que otro tipo de distracciones. 

Por lo tanto, educar bien a la mujer obrera presupone el principio de la mejora intelectual, moral y material de toda la clase obrera. Flora, como buena "socialista utópica", confía totalmente en el poder de la educación, y como feminista exige la educación para las mujeres; además, sostiene que de la educación racional de la mujer depende la emancipación del varón.

Algoo que hasta los días de hoy se sigue repitiendo en las declaraciones de principios de todos los movimientos feministas. Su discurso llama al sentido de justicia universal de la humanidad, en general, y de los varones en particular para que acepten  cambiar una situación que, a su entender, termina volviéndose también contra ellos mismos. 

"La ley que esclaviza a la mujer y la priva de instrucción, los oprime también a ustedes, varones proletarios. (...) En nombre de su propio interés, varones; en nombre de su mejora, la de Uds, , varones; en fin, en nombre del bienestar universal de todos y de todas, los comprometo a reclamar los derechos para la mujer".

"La emancipación de la mujer" (publicado entre 1845 y 1846) es un ensayo en el que se anticipa el moderno pensamiento feminista y que se manifiesta daramente contra la inferioridad de la mujer en el casamiento, a la vez que combate la hipocresía de todo el ambiente social, familiar e de trabalho que rodea las relaciones entre los sexos.
Sus ideas se pueden resumir prácticamente en dos frases: "Todas las desgracias del mundo provienen del olvido y del desprecio que hasta hoy se hizo de los derechos naturales e imprescriptibles del ser mujer".
Y ”Hay alguien todavía más oprimido que el obrero, y eses alguien es la mujer del obrero”.


Javier Villanueva, São Paulo, 31 de agosto de 2015

Lea más en: http://www.blest.eu/cultura/teitelboim87.html

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Cien años y aún no te olvidaron, Soledad.



História, povos e heróis
Por José Vilas Novas

Guaraní, desde que viniste del Paraguay, sos eternidad,
Cien años y aún no te olvidaron, Soledad.
En el mar Cien fuegos
Nos hacen mirar 
Al horizonte que habremos de alcanzar
La.marca que nos dejó, el capitán,
Es una estrella
En nuestro pecho
Un deber, que Prestes tu fuerza toda,
columna, manos y espíritu
Pa' los pueblo'
eS.andino, caribeño, es amazonico y patagón nuestro 

uno compromiso
Nuestra historica misión
La liga de los pueblos libres
Desde el sur del río bravo
Un nuevo Palmares
donde todas y todos,
¡Viviremos!


José Vilas Novas

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Migração, um direito dos pássaros, as baleias, os pinguins e os humanos




Migração, um direito dos pássaros, as baleias, os pinguins  e os humanos

Da África-mãe, ao Centro Oriente e dai ao extremo Oriente e rumo a Europa. Da Sibéria à América do Norte e outra vez ao Sul. Mania humana de migrar há mais de 90 mil anos atrás! 
Migrações: uma antiga moda do homem. Emigrações para "os que sobram" nas suas pátrias. "Imigrações" para os que cruzam novas fronteiras nacionais. 

Quantos italianos emigraram buscando novos horizontes?

Entre 1870 e 1970, uns 28 milhões de italianos emigraram. Quase a metade da população do país.
Em torno de 4 milhões de italianos chegaram aos EUA entre 1890 e 1914. 
Em Buenos Aires, em 1895, dos 663.864 habitantes, 181.361 eram italianos. O mais italiano era o bairro de Boca. A população era pobre, mas 80% dos comerciantes e 70% dos empregados eram italianos. Nesse mesmo 1895, das 143 publicações periódicas, 13 eram escritas em italiano.
EUA, Canadá e Argentina eram os países com capacidade de atrair grande número de imigrantes espontâneos. O Brasil teve que apelar para uma migração subvencionada: o governo brasileiro pagava a passagem dos imigrantes.
Do fim das Guerras Napoleônicas em 1815 até 1930, 60 milhões de europeus emigraram. 71% foram para a América do Norte, 21% para a América Latina (sobretudo Argentina e Brasil) e 7% para a Austrália.
No total, 5,6 milhões emigraram para os EUA, 3 milhões para a Argentina e 1,5 para o Brasil.

Enquanto os pobres da Europa emigravam, os exércitos e empresas coloniais abriam caminho pela África, Ásia e América Central e Sul.
À velha política da escravidão seguia a de expandir impérios comerciais, e assim nascia o imperialismo, com suas guerras, invasões e exércitos de ocupação. Invencionice da esquerda? ou apenas ignorância da direita.

Fuçando nos livros, que não mordem

A arqueologia supõe que os primeiros grupos humanos deixaram a África, e logo seguiram pela costa leste, onde os recursos eram mais abundantes. A primeira onda de migração cruzou o Oriente Médio, foi para o sul da Ásia e, finalmente, seguiu rumo à Austrália. 
Supõe-se que tudo isso aconteceu aproximadamente entre 90 mil e 60 mil anos atrás. Outras ondas de migração humana se seguiram, entre 40 mil e 12 mil anos atrás. Os grupos de pessoas saíram no rumo norte em direção à Europa.
Porém, o alcance destas enormes caminhadas era limitado porque uma enorme placa de gelo se estendia por toda a parte norte da Europa continental.

As condições gerais da era gelada também ajudaram a expandir os territórios dessa humanidade primitiva. Uma placa maciça de gelo, numa época em que os níveis do mar eram mais baixos, ajudou a formar uma ponte entre a Sibéria e o Alasca, que hoje chamamos Estreito de Bering.

Os primeiros humanos andaram pela Sibéria, até cruzar o Estreito, há mais de 30 mil anos, mudando o rumo em direção ao sul, para a costa oeste da América do Norte.

Há também outras fontes, que sugerem que houve uma migração por territórios norte-americanos mais recente, que teria começado aproximadamente há uns 15 mil anos. E novas evidências parecem continuar fixando a época da primeira habitação norte-americana para esse período.

As grandes massas de migrantes humanos finalmente se espalharam pela América do Sul e seguiram pelo leste para o que atualmente é o leste dos Estados Unidos e Canadá. Essa teoria da colonização da América do Norte é sustentada pela prova do mtDNA, o que parece incontestável, e pela semelhança das estruturas dentárias das populações norte-americanas e da Sibéria da época.

O genoma mitocondrial (ADN mitocondrial, ADNmt/ADNm ou mtDNA/mDNA em inglês) é o material genético das mitocondrias, os orgánulos que geram a energia para a célula. O DNA mitocondrial se reproduz por si mesmo semi-autonomamente cuando a célula se divide. O DNA mitocondrial fue descoberto em 1963, por Margit M. K. Nass e Sylvan Nass utilizando microscopia eletrônica e um marcador sensitivo ao DNA mitocondrial.

Essa primeira expansão da humanidade pela superfície desconhecida da Terra ocorreu principalmente atrás da comida, que devia ser escassa, e devido ao clima.
As tribos nômades, talvez com apenas algumas centenas de pessoas, provavelmente seguiam os mesmos padrões de migração das aves e dos outros animais que caçavam. As grandes mudanças climáticas da época foram abrindo novos caminhos para a caça, da mesma forma que as rudimentares tecnologias, como o domínio do fogo e da conservação de alimentos, foi permitindo aos poucos que o homem vivesse em condições menos extremas. A capacidade dos seres humanos de se adaptarem a novas circunstâncias não apenas deu aos homens primitivos uma vantagem em relação ao Homo Erectus, como também facilitou a expansão da espécie por toda a superfície da Terra.

JV. São Paulo, agosto de 2011.

Mais sobre emigração e imigração:






Y así empezó esa vieja costumbre de migrar, emigrar e inmigrar.


San Pablo, Brasil, 13 de septiembre de 1979

“–Argentina empezó su formidable expansión con la “Campaña al Desierto” de 1879 de Julio Roca, que los indios prefieren llamar “conquista” de la Patagonia, y que la historia oficial ve como “la última guerra por la ocupación definitiva del territorio nacional”– cuenta Victoriano.

–Hasta entonces se trataba de frenar a los furiosos malones que desolaban la pampa con recursos ingenuos, como cavar un foso de más de 600 kilómetros. Mientras el país se ataba cada vez más al Imperio Británico, su flamante ejército y marina seguían el molde rígido del modelo militar  prusiano–  carraspea, le da el mate a Victoriano y sigue, académico, doctoral, Anibal Fuentes.

–La elite, mezcla única de expatriados españoles e italianos de cultura afrancesada, imaginaba a Argentina, tal vez sin darse cuenta de lo que eso significaba, como la nueva Europa de las Américas– alarga su perorata Anibal.

–Además, Sarmiento había llenado el país de escuelas que eran ejemplares para su época, con maestras venidas desde la mismísima Inglaterra, como en la escuela Normal de Catamarca–  agrega el doctor, y le da el mate a doña Eufemia.  
–Después de más de ciento treinta años -con nuevas políticas y sucesión de próceres, héroes y bandidos- los partidos en el poder también han cambiado, variando sus diferentes discursos. Esto fue gradual en las raras primaveras democráticas, o abrupto, por vía de golpes militares; incluso en los pocos años de agitación casi revolucionaria, como en la primera mitad de los 70. 
Pero los sujetos anónimos, la masa de inmigrantes por ejemplo, un mero instrumento de la ocupación territorial después de la invasión al Desierto, no ha podido formarse aún una identidad nacional  y que le sea propia. Los nietos del inmigrante de ayer, hoy quieren irse; sueñan con volver a emigrar, pero ahora hacia Europa, la vieja seductora de siempre. 
El bisnieto del antiguo inmigrante busca la doble ciudadanía, se desespera por el pasaporte de sus abuelos, que ya no es un papel ocre en el que cien años atrás se veía una cara triste, con la mirada de un ser casi sin esperanzas, que venía a América a rescatarse y tratar de encontrarse como ser humano. 
No, lo que desean ardientemente ahora los nietos de aquél anacrónico desesperado de otro siglo, cuando Europa entera pasaba por hambrunas feroces y se debatía entre la paz y la guerra, es el salvoconduto de la Unión Europea– completa Anibal.”


23 de abril de 2006, seis menos veinte de la tarde.

El avión de la Varig carretea unos trescientos metros, pero se para de golpe antes de llegar a la cabecera de la pista y baja la potencia de los motores, gira y se vuelve lento, exasperante, hacia el aeropuerto. Supongo que debe haber algún desperfecto serio, pero nadie informa nada y yo tampoco me preocupo demasiado, aunque pierdo el sueño que normalmente me ataca en los despegues del avión; y vuelvo al “Laprida” de 200 hojas con los manuscritos de mi viejo:

San Pablo, Brasil, 19 de septiembre de 1979

“–El mundo entero cambió, y aquella Argentina de los hombres del liberalismo de los años 80 es un sueño que se deshace, hundiéndose de a poco– dice Fuenzalida cuando le parece que el doctor Anibal Fuentes hace un descanso en su discurso sociológico.

 –Y la desilusión y el fracaso del pobre, o del hombre de clase media, brasileño o argentino, se repiten en centenas de lugares en todo el mundo. Pero, por otro lado, cuando un inmigrante negocia sus productos de contrabando en cualquier callecita de Europa, listo para huir de la policía, queda claro que, muy pronto, ese viejo continente va a ser tan mestizo como lo son hoy América o Asia– agrega.  

–Y por racionalismo o mera culpabilidad, habrá acabado en Europa la odiosa pretensión de hegemonía egoísta que sacude en ciclos de terror al resto del mundo desde el medioevo. –  lo mira de reojo a Anibal, nota que Victoriano hace una mueca imperceptible de cansancio o de fastidio y se calla, Cacho Fuenzalida.  

–Perder la memoria de la inmigración nos hace olvidar que mitad de nuestros bisabuelos llegaron al país, engatuzados con las falsas promesas de tierra y libertad, radiantes actores de una monumental fuga en masa, nunca vista antes, de la población europea pobre hacia América– insiste Anibal Fuentes.

–Aquí pedían con urgencia una mano de obra barata, y nuestros antepasados, plantadores o artesanos pobres, sobraban en el centro y en el sur europeos, que seguían muy lentos en sus industrias. Huían de países asolados por la estupidez de las eternas guerras.

Sus patrias, casi sin salidas pacíficas y duraderas, les abrían la cabeza para un ideal de aventuras, que traía el dolor del exilio, la emigración y la nostalgia– dice Anibal, cuyos padres llegaron de Barcelona un mes antes que las tropas fascistas de Franco tomasen la ciudad y fusilasen al abuelo, militante del anarcocomunismo sindical.”

Desde mi cama de enfermo, sin poder intervenir en la charla, pero sin perderme palabra de lo que se habla, me desvío por un lado más humano y cómico del tema, recordando que después de la caída de la República, miles de españoles cruzaron los Pirineos hacia el sur de Francia, esperando solidariedad del gobierno socialista de León Blum, que por fin los encerraría en campos de refugiados. Y así fue que a los españoles en Francia, a medida que salían del confinamiento y se ponían a trabajar, con cariño o con desprecio, los conocieron como “espangouin”. 

–Sí, así es– dice Anibal– les decían “pingouin espagnol”, porque la mayoría, al llegar a París, trabajaban de mozos y camareros en restaurantes, de frac, en blanco y negro, como los pingüinos– y se extiende otra vez, entusiasta en su floreo enciclopédico, nuestro docto Dr. Anibal Fuentes.

Siento que me vuelve de a poco la fiebre, y me acuerdo que Anibal decía que, al final de la guerra de España, como muchos combatientes obreros jugados por la República, Juanjo, un hermano de su abuelo, había entrado al PCE. El tío abuelo del doctor sintió en la propia carne la ferocidad de Franco para exterminar a los vencidos. Fue preso en los campos de trabajo forzado en el norte de África. 
Se fugó, refugiándose en Argelia, donde trabajó como oficial metalúrgico.  Aprovechó un indulto y volvió a España en 1957; en Madrid entró en la fábrica Perkins.
Como otros muchos luchadores de las Comisiones Obreras, Juanjo Fuentes fue juzgado por el Tribunal de Orden Público franquista y enviado a prisión. 
Saldría de la cárcel diez días después de la muerte de Franco, pero todavía lo detuvieron una vez más, en diciembre 1975. Y la enfermera entra con los remedios mientras Victoriano sale despacio, y yo siento que me adormezco y sueño.


23 de abril de 2006, seis y diez  de la tarde.

Bajamos del avión y volvemos a las salas de espera; nadie explica nada y sigo leyendo. Aunque no entiendo bien hacia adónde apuntan las anotaciones del viejo en el “Laprida”, sí coincido con sus conceptos. Y es que la inmigración que él describe, de millones de miserables europeos entre el siglo XIX y el XX, fue precedida aquí por un racismo despiadado que idealizaba todo lo que era del viejo mundo, mientras postergaba y ultrajaba a nuestros criollos y mestizos. El Martín Fierro denuncia esa política que prepara la aniquilación del indio y la marginación del gaucho, acciones que irían a inaugurar esa nueva realidad social.

Casi me duermo con el cuaderno en las manos, hasta que los parlantes anuncian por fin, después de dos horas de espera en el zaguán de Guarulhos, que el vuelo de la Varig São Paulo-Porto Alegre-BsAs va a salir dentro de 45 minutos; vuelvo al manuscrito:

“–La América mestiza se fue forjando desde Méjico hacia el sur, como el más asombroso efecto del nuevo mundo: los millones que hoy hablan portugués y castellano, sintetizan centenas de culturas, nativas o importadas, que fueron proscritas y doblegadas por la fuerza de la espada y de la cruz. Todos fueron sometidos: como luego lo serían los indios acá, también lo eran los propios colonizadores allá en Europa, ya que en su mayoría venían del sur miserable de España– dice Fuenzalida, –y muchos de esos conquistadores rudos eran árabes o judíos, cristianizados a los porrazos. Marginados, los cristianos nuevos, judíos en realidad, lograron pasar a través de Portugal y llegar hasta aquí, escondiendo su calidad de conversos. Y más relegados eran los negros traídos en cadenas, o los chinos llevados a Chile y al Perú, cuando se les acabaron los esclavos negros. 

Por fin, también fueron sometidos y degradados los italianos, vascos, gallegos y catalanes inmigrantes, todos expulsados de Europa, porque sobraban en la producción, que allá en sus patrias no tenía donde más aprovecharlos–  remarca mi primo Raúl, le devuelve el mate a Eufemia, y termina su largo comentario. 

–Argentina y toda América Latina son el fruto mestizo de una cultura de sometidos, y olvidarlo es negar nuestra esencia–chupa el último trago del chala, exhala el humo azul y dice, muy bajo, Victoriano.”

23 de abril de 2006, siete y veinticinco de la tarde.

Otra vez el avión carretea por la pista pero esta vez despega sin más demoras; a pesar del problema que no fue informado, salimos sin otros imprevistos; el comandante informa que en pocos minutos llegaremos a la altura de crucero, los 10 mil metros, y van a servir el almuerzo; salgo de la modorra y voy al baño a mojarme la cara; ni bien entro, empieza una cierta turbulencia y me vuelvo al asiento. Retomo la lectura del “Laprida”, que cada vez parece más un conjunto de apuntes sin una línea clara de pensamiento. Sigo la lectura:


Continuará

J.V. São Paulo, enero de 2006. Trecho de la novela "De utopías y amores, de demonios y héroes de la patria".