sábado, 11 de abril de 2020

A Peste. 2024. Parte 7.

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A Peste. 2024.
Parte 7.

Jorginho não conseguiu tomar coragem para encarar a rua novamente ate uns dez ou doze dias depois da sua primeira tentativa.
Saiu direto para a casa da Ana Lúcia, prima de Roberta, que sem dúvidas poderia ter alguma notícia ou informação sobre sua amada.
Apalpou a Taurus 38 que havia colocado nas costas, debaixo da jaqueta e com quatro balas no tambor.
Não havia andado nem duzentos metros quando um homem pulou de dentro de uma porta e lhe apontou uma faca no pescoço. Muito lento pela falta total de costume em lidar com uma arma, Jorge tentou puxar o revólver, mas o assaltante foi mais rápido, seguramente por ser mais experiente, notou o movimento e exigiu que lhe entregasse a Taurus.
Entregou, e na hora se deu conta que o ladrão era um dos guardas do Ministério que o haviam enquadrado na primeira saída.
Já quase se sentindo mais seguro ao comprovar a identidade do assaltante, Jorginho perguntou o óbvio: ––E por que mudou de lado, se me permite? ––Por dinheiro, claro, ganho mais assim que com o salário de guarda de segurança pública.
Já quase se sentindo mais seguro ao comprovar a identidade do assaltante, Jorginho perguntou o óbvio: ––E por que mudou de lado, se me permite? ––Por dinheiro, claro, ganho mais assim que com o salário de guarda de segurança pública.
Sem mais palavras, se afastaram um do outro, mas não tinham passado nem cinco minutos quando o assaltante reapareceu:
––Escuta. Quero propor a você o seguinte: eu devolvo a sua arma a troca de um pouco de comida e algum dinheiro, se tiver. Vamos! Jorginho não tinha alternativa, e a proposta era boa. A arma era cara e também representava sua única segurança em tempos tão tenebrosos.

O curioso episódio ficou dando voltas na cabeça do Jorge até virar um pequeno conto. Sim, porque Jorginho era escritor.
Não era o que chamaríamos de um “escritor de sucesso”. Havia parado de tentar publicar um romance que vinha escrevinhando durante os últimos nove anos quando, depois de seis ou sete apresentações em concursos literários viu que ninguém se interessava por aquele seu texto, justamente o que ele considerava o mais importante e definitivo da sua carreira.

De fato, já tinha escrito e publicado bastante: foram crônicas, contos, alguma poesia, e um par de mini romances para a revista “O Novo Cruzeiro”, que fundara em 1994 com dois colegas do folheto cultural “ProHispam”, da qual tirava seus magros salários fixos. Pobres, mas garantidos e seguros salários a cada quinzena.
Trabalhou também como cartunista, completando mais de 190 publicações em diversos jornais e revistas de São Paulo, Juiz de Fora, Santa Maria de Rio Grande do Sul, e Campinas, entre crônicas, contos, romances e quadrinhos.
E ainda escreveu para a televisão a série “Planeta das Mulheres”. Em 1998 lançou sua primeira peça teatral, “Uma mulher desnuda ao sol”, e com ela ganhou o Prêmio Camões Jovem.
Depois passou mais de dez ou doze anos opacos e abúlicos, rabiscando no Blog Carpindo, onde reuniu suas crônicas, e chegou à marca de um milhão de visitantes. Mas, embora premiado, muito lido no seu blog, e autor de treze livros, Jorge Sánchez era consciente de que nunca passou – e provavelmente não passaria- de um escritor medíocre
Na realidade, ele era um técnico formado aos 21 anos em meteorologia, que mais tarde foi administrador de empresas, professor particular de inglês, de datilografia primeiro e de informática depois; e, nas horas vagas – que eram muitas–, um especialista em futebol brasileiro. Em síntese, um eclético total.
Nos últimos dois anos, até uns poucos meses antes da primeira onda da grande pandemia em 2020, e deprimido pela rotina do trabalho e pelos sucessivos fracassos de crítica das suas obras, Jorge caiu numa depressão que o confinou durante meses a fio na frente das telas da Netflix, alternando apenas com as palavras cruzadas e os intermináveis quebra-cabeças. Enquanto isso, trabalhava como jornalista free-lancer, escrevendo sem nada de vontade algo de ficção adulta e juvenil por encomenda, e fazendo roteiros eventuais para o cinema, ou atuando como consultor no canal de TV mais conhecido – e o mais criticado- do país.
Foi nessas circunstâncias que, numa viagem curta a Espírito Santo, conheceu Roberta, de quem se apaixonou, e que sem motivos aparentes o abandonou repentinamente, poucos meses e muitas conversas depois.
Roberta e Jorge tiveram semanas de entusiasmo mútuo, gastando horas do dia e da noite em longos papos por telefone, e até por cartas enviadas e recebidas a cada dia pelo correio. Falavam de literatura, é claro, e ele pensava que a seduzia com os seus muitos conhecimentos superficiais de tudo, sobretudo da prosa anglo-saxã que tanto obsessionava a Borges, outro dos seus temas preferidos.
Roberta insistia em não avançar no relacionamento, em não abrir espaços para o amor e muito menos ainda para o sexo; ela tinha medo de ser magoada; ficava apavorada pela ameaça de ser rejeitada, dizia, e falava dos sofrimentos com a mãe e o pai.
Mas foi ela quem finalmente o rejeitou, não sem antes dar-lhe uma boa oportunidade para ele cair rendido aos seus pés, e ela se revelar como uma insensível sedutora.
Roberta o deixou de quatro – literalmente – depois de lhe oferecer os beijos, as carícias e o sexo mais delicioso que Jorginho nunca tivesse imaginado na sua vida.
–– Foi ridículo- disse ele. –– Um dia qualquer, semanas depois de nosso primeiro encontro, que durou seis dias e cinco noites, liguei para falar apenas um oizinho, e ela me disse que estava embarcando para São Paulo e que passaria em Congonhas em um par de horas, rumo a Curitiba.
Jorge achou estranho o fato de ela não ter lhe avisado antes, mas, mesmo assim, largou tudo o que estava fazendo no seu birô editorial em Guaianazes, e pegou metrô e dois ônibus para chegar à zona sul de São Paulo, esquecendo três clientes na sala de espera, em pleno expediente, a mais de 40 km de onde pensava encontrar a sua amada. E a encontrou, sim, mas depois de esperá-la durante meia hora para, em menos de quinze minutos e café expresso mediante, separar-se com um longo beijo frio – da parte dela - que o deixou sem chão.
–– Nunca me senti tão pateta – repete Jorginho, ainda lembrando da frieza repentina de Roberta.
–– Mas tudo tem uma compensação na vida, e também nada acontece por acaso. Foi na saída de Congonhas, mais afundado na depressão ainda do que já havia estado nesses últimos meses que, distraído, quase derrubou uma jovem mulher que entrava apressada ao hall principal do aeroporto carregando desajeitadamente uns cinco ou seis livros.
–– Caíram todos no chão e me apressei a recolhê-los – diz Jorge-, e nesse momento a minha vida mudou, pelo menos a minha vida literária, por completo-.
Um dos livros espalhados no chão era “O fusca amarelo”, da sua autoria, e um dos títulos menos conhecidos no mercado embora mais trabalho tivesse tido Jorge para escrever, editar e vender; outro dos seus fracassos literários, digamos.
Mas Marta – que era a desconhecida com a qual teve o desastrado encontro– reconheceu de imediato no rosto do trapalhão o escritor da foto na quarta capa de um dos livros caídos e espalhados pelo chão.
Com os olhos fixos na publicação ela disse, muito devagar:
–– Mas...desculpa, você é...Jorge Sánchez, né?-
–– Sim, eu...perdão pelo desastre, eu...-
–– Gostei do seu livro. Sim, gostei muito. Posso fazer um par de perguntas? Está com tempo? – ofereceu um cartão, e assim Jorginho soube que Marta era gerente da livraria do aeroporto e que o tempo parecia não ser seu problema.
Passaram um par de meses depois do encontro desajeitado de Marta Rotondo e Jorge, até que o escrevinhador descobrisse o caminho das pedras que deveria estar traçado desde sempre para que ele, já entrando na idade mais madura – que ele entendia como o início da velhice – pudesse por fim saborear a doçura do sucesso. Mal sabiam eles que, em poucas semanas, o mundo viraria um caos com a chegada da peste -a pandemia do corona vírus- e que as descobertas na literatura e na vida já não seriam as mesmas.
Tinham conversado sobre diversos temas, principalmente dos livros de Jorginho e das suas várias tentativas de acertar com um bom romance, assim como dos seus fracassos sucessivos. Marta, porém, parecia querer algo mais do que conversas e o olhava com carinho crescente. Mas ele sempre desviava o olhar, até que numa das tantas tardes de conversas no café de Congonhas, ela fez um movimento de pálpebras e cílios que de imediato lembrou Jorge dos olhos esverdeados e tristes, sempre a um ponto de chorar da já quase, quase esquecida Roberta.
E em seguida rememorou a chuva no telhado naquela madrugada - a última noite de amor em Espírito Santo-, as gotas furando o forro e pingando quentes no seu peito enquanto Roberta se mexia em cima dele, gemendo e fazendo imaginar que aquilo era amor, e que além de tudo podia ser eterno.
Mas de repente, Marta disse algo que o tirou do fascínio e parou de sonhar acordado:
–– Sabia? Minha tia Rosa, a espanhola, aquela que já te contei que escreveu vários livrinhos curtos contando suas memórias, era cunhada de El Brujo López Rega, ministro e alma-máter do governo de Isabelita Perón, nos conturbados anos '70 na Argentina.
Continuará.

Javier Villanueva. São paulo, agosto de 2024.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

A Peste. 2024. Parte 6


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A Peste. 2024.
Parte 6

A primeira surpresa de Jorginho foi saber que havia um enorme território liberado, com um autogoverno popular e revolucionário, que havia enfrentado e derrotado a ditadura do Ministério da Saúde.
Eram grandes territórios que se espalhavam nas principais capitais do país e que, como em todos eles haviam sido capturadas armas e aeronaves de todos os tamanhos, muitas dessas áreas estavam comunicadas entre elas, com um apoio e solidariedade consistentes em alimentos e suprimentos de todos os tipos.

A segunda surpresa foi quando ficou sabendo que, em menos de cinco dias, a região liberada tinha chegado aos fundos do seu prédio no centro de São Paulo, e que já se estendia de Santo Amaro ao sul até o pé da Cantareira ao norte, e da Lapa até a Vila Formosa ao leste.

Ainda por cima, a pouco mais de um quilômetro do centro, estendendo-se até o bairro da Aclimação e uma parte de Ipiranga, o PCC e outros grupos de narcos tinham tomado o controle firme da área e não permitiam que o Ministério enviasse nem suas tropas nem suprimentos. Eles cuidaram da saúde durante a epidemia e agora, igual ao majoritário território liberado pelas esquerdas, pretendiam ampliar-se a outras áreas.

Jorginho não saia do estupor e se debatia pensando em como iria cumprir com o seu propósito de finalmente sair do apartamento e procurar sua amada Roberta.
Imaginou passeios pelos sebos do centro, como se estivesse em Paris, atrás da Maga do Jogo da Amarelinha, mas depois da triste visão da primeira livraria de usados fechada desistiu da tática. Os vendedores de livros em geral, ou tinham falecido nesses longos quatro anos, ou haviam falido e fechado seus sebos.
Pensou em andar pelos parques e alamedas, mas cadê elas em São Paulo? com certeza não seria por aí que iria se encontrar com a mulher dos seus sonhos mal resolvidos.

Por outro lado, Jorginho já andava pelos 55 anos de idade, e embora se considerasse ainda jovem, não conseguia se livrar da lembrança do Diário da Guerra do Porco, que conta como num certo dia, de modo inesperado, os jovens de Buenos Aires decidem que quem tem mais de cinquenta anos é um inútil para a sociedade. E lançam, desse modo, uma misteriosa e terrível "guerra aos porcos", na qual os jovens fazem uma caça aos velhos com a clara intenção de eliminar aqueles que hoje chamaríamos de "idosos".

Jorginho e o seu grupo de amigos, moradores do mesmo apartamento havia anos, muito antes do início da pandemia, já estavam aposentados, e se denominavam entre si, e em tom de brincadeira "os rapazes"; mas agora se sentem temerosos e desprevenidos no meio da violenta revolução que acontece na zona liberada vizinha, os tiroteios constantes na área dos narcotraficantes, e as forças do Ministério; pensam que isso pode levar a um conflito também geracional que os obrigue a alterar todos seus hábitos e a improvisar uma defesa desesperada.

Jorginho quer sair à procura de Roberta, mas é consciente que deve também aprender a deslocar-se pela cidade em horas bastante improváveis, e esconder-se dos guerrilheiros do território popular, e muito mais ainda dos narcos, dos que agora receia.
Porém, no meio do terrível conflito, Jorginho sabe que, assim como no romance de Adolfo Bioy Casares floresce o amor secreto entre o velho Vidal e a jovem Nélida, do mesmo modo que a sua eterna paixão por Roberta, mesmo que mal resolvida, nunca vai morrer, e precisa encontrá-la rapidamente.

Continuará.

JV. São Paulo, agosto de 2024.

domingo, 29 de março de 2020

A Peste. 2022. Parte 5. A Insurreição Popular em tempos de vírus.

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A Peste. 2022.
Parte 5.
A Insurreição Popular em tempos de vírus.

Depois que o Ministério virou Da Saúde Pública, com fortes influências da Revolução Francesa na sua fase mais radical, e tirou do poder o Pequeno Ditador, um bloco bonapartista uniu os partidos da direita liberal com o minguado grupinho da centro-direita, que buscava com urgência uma saída à crise da falta de mão de obra nas fábricas, o comércio e a banca.
Ao ponto do próprio capitalismo central -os EUA e a Europa do norte- buscar desesperadamente uma solução neo-keynesiana, ou "keynesiana de guerra", a lo New Deal ou ao estilo Plano Marshall, o que fez que em menos de dez dias todo liberal de ontem virasse distribucionista hoje.
A volta da economia keynesiana de guerra foi a derrota de Trump e uma vitória do Pentágono, farta do discurso guerreirista contra a China e ávido de novas taxas de crescimento.
A pandemia da Corona trouxe um novo cenário: era urgente alimentar o povo trabalhador e facilitar o crédito às empresas falidas depois de meses de quarentena e inatividade.
Passados quatro anos, o resultado era melhor do que poderia ter sido sem ajuda estatal, mas mesmo assim, a anarquia e a desobediência civil tinham se instalado em vastas regiões do planeta.
Pouco antes de começarem as maciças tarefas de distribuição de alimentos para as famílias mais pobres e insumos e crédito para as empresas, já milhares de trabalhadores pobres saqueavam supermercados -abertos ou fechados ao público- e criavam milícias populares para atacar de frente a fome e o desabastecimento.
Jorginho e seus colegas no apartamento morriam de medo de ter a casa invadida, mas nada disso aconteceu nos quatro anos e três meses de quarentena.
Quando por fim Jorge teve coragem de sair outra vez às ruas, depois de cinco dias de decretado o fim da quarentena, as coisas tinham melhorado um pouco. Não deixava de pensar em Roberta, mas agora teria mais cautela.

Porém, o que Jorginho ignorava e Júlio, seu companheiro de apartamento ficou sabendo e lhe contou ao dia seguinte, foi que em vastas áreas da cidade de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, grupos armados de operários desempregados haviam estabelecido um poder paralelo:
- Durante seis meses, os combates na escuridão total permitiram que os grupos de trabalhadores e estudantes sublevados capturassem das mãos da polícia do Ministério cada vez mais armas pesadas, uns seis carros de patrulha da PM, e até mesmo dois caminhões militares cheios de FAL que os soldados tinham largado quando viram os manifestantes chegando feito um maremoto.
Muitos recrutas se dispersaram, mas muitos mais foram os que se somaram às barricadas e ocuparam três delegacias da polícia da Zona Leste de São Paulo, o plantão central da Polícia Federal na marginal do Rio Pinheiros, e dois destacamentos da aeronáutica no centro e em Santana.
Os oficiais capturados em combates foram desarmados e liberados imediatamente, mas dois agentes de inteligência e um delegado da Polícia Federal permaneceram como prisioneiros na sede do sindicato dos Metroviários.
Quando o Ministro quis contra-atacar ao dia seguinte, já não tinha jeito, teve que negociar a libertação dos reféns em troca de uma trégua de 72 horas, o que foi suficiente para que os sublevados pudessem entrar nos estúdios das rádios CBN e Jovem Pan, e nas redações da Folha de SPaulo e chamassem os repórteres e diplomatas de todos os países representados em São Paulo - tem uma voz cada vez mais emotiva, fala bem alto, faz gestos e pulam as lágrimas dos olhos do Júlio.

- Bem, o fato é que a ONU enviou oito caminhões com alimentos e medicamentos, a Cruz Vermelha conseguiu entrar com uma dúzia de ambulâncias e tratar dos feridos, que eram mais de trezentos, e foi ai que a revolta popular escapou por completo das mãos da ditadura do Ministério- completa Júlio.
Jorginho ainda não entende muito do que ouve, mas pensa que está sonhando, e corre para ver, da janela estreita do quarto, uma barricada alta de madeiras e arame farpado, e as heras, as samambaias do ar e outras plantas trepadeiras que subiram ao topo das varandas, e agora o conjunto parece mais uma colina ou uma montanha luxuriosa, verde e florida, que atravessa a calçada, bem enfrente à boca do metrô Anhangabaú.
Jorginho olha para as barricadas e lembra-se de novo, obsessivamente, do medo que sentiu quando saiu pela primeira vez para uma ação de rua no centro da cidade. Era junho de 2013 e os ecos das bombas lacrimogenas chegavam até ele pelo entusiasmo de uma menina, Roberta, jovem militante de 29 anos, pioneira dos Comandos da Resistência Armada, ainda totalmente clandestinos até para os centros de inteligência do estado. E mesmo que ele quisesse impressioná-la, Jorge não teve coragem suficiente para carregar as bombas molotov, e a deixou esperando por mais de meia hora na esquina da Consolação com a Caio Prado. Nunca mais a viu, até que um dia retomaram o contato por cartas.
Finalmente, Jorginho só sai do sonho das memórias quando volta a ouvir a voz profunda do Júlio, que continua o relato:
- E depois de passar meses sem lutar, com uma ou outra escaramuça dispersa de vez em quando, esquecidos pelo poder central de Brasília, e lembrados vez ou outra ao longo do tempo pelos gestores do saneamento, ou pela Eletropaulo que eventualmente cortavam o abastecimento de água ou de energia elétrica, as organizações revolucionárias foram estruturando melhor os bolsões com os governos de auto-gestão das vizinhanças, armando e treinando diariamente os guardas das auto-defesas e a assistência sanitária, até finalmente chegar a um acordo e criar várias instâncias de um governo popular.
Jorginho ouvia, mas continuava pensando em Roberta.


Continuará.
JV. São Paulo, agosto de 2024.

A Peste. 2024. Parte 4.

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A Peste. 2024.
Parte 4.
Os longos 18 meses, de agosto de 2020 até finais de 2021, não tinham sido nada fáceis para Jorginho.
Bom, nem para o Jorge e seus colegas de apartamento, nem para os 12 milhões de paulistanos e os 220 de brasileiros, sem esquecer dos bilhões de humanos que, temerosos do Vírus, passaram a mudar suas rotinas de um modo radical.
Mas para Jorge, esse ano e meio tinha sido o período da paranoia em relação aos jovens e a violência destes contra os velhos e até os supostos velhos, acusados de serem os causadores da peste que assolava o mundo.

                              “¡Al altillo, hermano, al altillo! –dijo excitadamente Faber, asomando la canosa cabeza por la puerta que Vidal había entrabierto.
-¿Qué pasa? –preguntó Vidal. Interpuso el cuerpo para que el otro no viera a Nélida.
-¿No oyó las descargas? Uno se creía en el cine. Usted no ha de ser de sueño liviano, don Isidro. Lo que es yo, aunque me estoy quedando sordo, cuando duermo ¡tengo un oído! Empujaba por entrar, como si maliciara algo o hubiera entrevisto a Nélida. Vidal sujetó con una mano la hoja abierta y se recostó contra la otra.
Declaró: -Ni pienso ir al altillo. Faber retomó su explicación: -Como se encontraron con la puerta cerrada –ahora el encargado mete candado y llave –quisieron abrirla a balazos. Menos mal que apareció un patrullero de esos que hacen bandera para que se diga que el orden está asegurado. Pero prometieron volver, don Isidro. Si no me cree, pregunte a los otros.
Todo el mundo oyó. –Le participo que me quedo en mi cuarto. Para empezar, no me considero viejo.
–Está en su derecho, señor –convino Faber, pero más vale pecar de prudente.
–Y después no me asustan. ¿Cómo me va a asustar la muchachada del barrio, unos pobres infelices que estoy cansado de ver desde que tengo uso de razón? Esa muchachada también me conoce y sabe perfectamente que no soy un viejo. Le doy mi palabra: ellos mismos me lo han dicho.
–Los que prometieron volver no son del barrio. Son del Club del Personal Municipal. Se incautaron de los camiones de la División Perrera y recorren las arterias de la ciudad, a la caza de viejos que buscan en sus reductos domiciliarios y se los llevan de paseo, enjaulados, en mi opinión para escarnio y mofa.
-¿Qué les hacen después? –preguntó Nélida. Estaba detrás de Vidal. Éste pensó: “probablemente Faber le ve los brazos”. –Hay quienes pretenden, señorita, que los exterminan en la cámara para perros hidrófobos. Al gallego encargado, un paisano le aseguró que abren las jaulas al llegar a San Pedrito y que los abandonan después de correrlos a lonjazos en dirección del propio cementerio de Flores. Nélida ordenó a Vidal:
-Cerrá la puerta. Vidal cerró y dijo: -Está loco. No voy a subir al altillo, con los viejos. –Mirá -aconsejó Nélida, yo, si fuera vos, me escondía esta noche, y me iba mañana, en la primera oportunidad. -¿Me iba, dónde? –A la calle Guatemala. Te venís conmigo, ¿no quedamos en eso? Tratá de no llamar la atención y después, que te descubran, si son brujos”.


Jorge tinha lido "La Guerra del Cerdo" na adolescência, e a releu muito tempo depois, aos quarenta ou quarenta e cinco. O romance não era nem um pouco simpático com a velhice, à qual apresenta como o lugar de tudo o que é repugnante, de todo o desvaído e a antessala da própria morte.
Aos personagens “velhos”, incluído o próprio Vidal entre eles, lhes custa reconhecer-se como tais, e mostram seu ódio e rejeição a tudo o relacionado com a velhice.


Mas Jorginho também pensa que Bioy Casares descreve os jovens como seres violentos e descerebrados, que realizam seus atos sem saber quais sequer são os motivos que os justificam.
E Jorge não pode deixar de pensar nos jovens partidários do Pequeno Ditador derrubado e das hordas verde-amarelas que exigem, agora clandestinamente, a urgente intervenção dos militares.

Mas o Jorginho prefere trocar de pensamentos, e da lembrança sombria das hordas de fanáticos apoiadores do presidente derrocado passa, quase sem dar-se conta, às recordações da sua nunca esquecida Roberta.

E outra vez se figura na pele de um atrapalhado Florentino Ariza, que, mais que desastrado, vai ao velório do marido da sua amada para dizer: "Fermina, eu tenho esperado esta ocasião durante mais de meio seculo, para repetir mais uma vez o juramento de minha fidelidade eterna e meu amor para sempre". À sensação da perda inesperada de Roberta, Jorginho a compara e equipara à vergonha súbita que Florentino Ariza deve ter sentido ao perder sua amada Fermina.


Mas, deveria desistir? Nunca! se o Florentino teve a coragem de ir até o fim, insistir e persistir, com carinho, respeito e paciência, e ao fim conseguiu seu objetivo, por que ele não poderia?
Mas era melhor pensar nisso mais tarde, quem sabe alguns dias depois. A abertura depois da quarentena de quatro anos recém tinha acabado de começar, e o mundo era uma criança.

Continuará.
JV. São Paulo, agosto de 2024.

A Peste. 2024. Parte 3.

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A Peste. 2024.
Parte 3.
Jorginho e seus 55 anos, voltando ao apartamento se lembra de Bioy Casares. Tinha lido meses antes o "Diario de la guerra del cerdo", romance do escritor argentino que a escreveu quando tinha, também, por volta de 55 anos de idade.

É uma narração breve, que conta uma guerra entre os jovens e os velhos. Seu protagonista é Isidoro Vidal (chamado erroneamente pelos demais personagens de "dom Isidro"), um aposentado que um dia acorda e descobre que os jovens decidiram começar a atacar e ameaçar a os velhos.

Jorginho já tinha sentido esse medo durante os longos quatro anos de internação voluntária - ao início, depois obrigatória- da quarentena do Corona Vírus.

Jorginho começou a sentir, lá a meados de 2020, que os mais velhos -não apenas os chamados "idosos" de 60 em diante-, a partir dos 55 anos de idade, como ele, estavam sendo culpados pela praga.

A peste, que a princípio parecia restrita aos maiores de 70, 80 anos, mas aos poucos foi diminuindo a idade das vítimas até chegar na média de 32 a 35 anos, foi virando um novo motivo de segregação e perseguição, agora contra os mais velhos, supostos causadores da pandemia que assolava o Planeta.

Jorginho tinha aumentado às angustias do confinamento e a falta de recursos crescentes, o medo paranóico à violência dos mais jovens.
Mas nem por isso tinha deixado de pensar em Roberta.


Continuará.
JV. São Paulo, agosto de 2024.

A Peste. 2024. Parte 2.


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A Peste. 2024. Parte 2.
As ruas estavam semi desertas às 18 horas e Jorginho se estremeceu de frio e de uma crescente angustia: que teria acontecido com Roberta nesses quatro anos?

Como na velha história do telegrafista, violinista e poeta Gabriel Elígio Garciá, pai de Gabo G. Márquez, - que se apaixonou por Luiza Márquez, e enfrentou a oposição do pai da moça, que tentou impedir o casamento enviando a filha numa longa viagem, para enfrentar o qual, Gabriel montou, com a ajuda de amigos telegrafistas, uma rede de comunicação que alcançava Luiza onde ela estivesse- Jorginho sonhava com voltar a ver e conquistar de vez o seu amor, vencendo todas as dificuldades.

Já tinha lido um par de vezes "O amor nos tempos do cólera", e se identificava totalmente com a paixão do também telegrafista, violinista e poeta Florentino Ariza por Fermina Daza, ambos inspirados na historia dos pais do autor.

E não tinha parado de pensar em Roberta mas que em umas poucas circunstâncias ao longo desses longos quatro anos. Tinham se conhecido outros tantos, talvez mais, cinco anos antes. Ela o amou, ele tinha certeza disso, ou pelo menos lhe deu a melhor e mais intensa carga de ternura, carinho e sexo que ele tivesse tido nos sus 55 anos de vida.

Ele achou, pensava às vezes, mas talvez tivesse se enganado, que ela o havia amado. E se não? e se não tivesse passado tudo de uma simples ilusão? se apenas tivesse sido para ela uma mera aventura rápida, de um par de meses de cartas e mensagens trocados e tão só três dias de amor, passeios e noites apaixonadas? Por que ela o havia abandonado de repente? por que motivo havia pedido, tão clara e irrefutavelmente, "por favor, não escreva mais"?
Primeiro, talvez por orgulho, ou por simplesmente não querer ver a realidade, tinha pensado que o "não escreva" se referia aos seus longos e insossos contos e relatos; talvez "não escreva" significasse apenas "não escreva mais essa pretensa literatura boba". Claro, ela não podia rejeitá-lo assim: ela, que tinha insistido um par de vezes que o seu pior medo era justamente a rejeição; por que ela o rejeitaria assim, sem outra frase ou explicação a não ser aquela "não escreva mais"?



Em fim, não era hora de pensar nesses detalhes bobos e sim de sair atrás dela, saber se tinha sobrevivido em primeiro lugar, e se estava bem, corretamente alimentada, sã e de bom humor, depois de quatro anos de encerramento forçado.

Mas também não teve muito tempo de continuar com as divagações: uma moto com dos rapazes o abordaram, cruzando a máquina a poucos centímetros e apontando-lhe com armas longas que carregavam com a ousadia e a soberba de quem já se acostumou a impor aos outros suas vontades, sem limites nem lei.

Somos do Ministério, disse um deles, o mais alto e magro, mas não mostrou nenhuma identificação. Tem a mão seus documentos e os certificados e atestados de saúde? perguntou o outro, mais baixo e claramente mais violento. Sim, respondeu Jorginho, e estendeu os dois papeis: RG e atestado de saúde expedido pelo Ministério dez dias antes. E por que não está usando a máscara? exigiu em tom mais forte o primeiro. Bom, eu ouvi hoje de manhã que não era mais obrigatória, respondeu Jorginho. Ok, pode seguir, disse finalmente o mais baixo, não sem antes apontar a Itaka bem no centro do peito e empurrá-lo, para em seguida jogar o RG e o atestado no chão e sair acelerando a moto.

Sem sair ainda do estupor, mas sem medo, Jorginho recolheu tudo e voltou para casa.
Não seria essa noite que iria arriscar a sua vida atrás de Roberta. E isso ficou ainda mais claro quando passou um grupo de dez ou doze partidários do Pequeno Ditador derrocado. Vestiam camisas verde-amarelas e exigiam a viva voz a intervenção militar contra o Ministério da Saúde, "antro de comunistas do PT", segundo se podia ler nas faixas que carregavam.
Olharam para ele com rancor, e um par de rapazes se aproximou correndo, assim que perceberam que Jorginho vestia uma camiseta vermelha. A polícia do Ministério, por sorte, chegou de imediato, dissolveu violentamente a manifestação, prendendo seis ou sete homens mais velhos e salvando-o, mais uma vez na mesma noite.
Era demasiado. Decidiu voltar rapidamente para seu pequeno apartamento da Rua Major Quedinho.



Continuará.
JV. São Paulo, agosto de 2024.

A peste. 2024.


Médico de la peste negra - Wikipedia, la enciclopedia libre

A peste. 2024.

Abriu a porta devagar, ainda com um certo receio. A luz tardia do oeste bateu nos olhos assim que virou à direita no corredor. É que o apartamento, orientado ao sul e apenas com uma pequena janela lateral, não o deixava ver mais que uma luz difusa, não mais do que cinco a seis horas por dia.
Eram cinco e meia e pouca gente andava pelas ruas, apesar das novas notícias do Ministério.

O vírus tinha retrocedido gradualmente até abandonar as ruas e os hospitais, e suas UTIs começavam a esvaziar. Tinham sido quatro anos e dois meses desde que, junto com um par de amigos, havia decidido se enclaustrar, saindo um par de vezes por semana ao início, uma vez na quinzena no final do primeiro semestre, e apenas a cada mês depois do segundo ano de quarentena.

Mais de trinta mil, falavam uns, e lembravam da cifra sonhada pelo Pequeno Ditador da primeira época. Alguns outros diziam que haviam passado de cinquenta a oitenta mil, números mascarados pelas muitas várias outras doenças e diversas comorbidades. As mortes "correlatas", que comentavam os médicos: falta de cuidados na hora de testar as doenças ou os episódios chamados "causa mortis".

O vírus tinha levado toda uma camada de cidadãos, e Jorginho saía hoje pela primeira vez em quatro anos para ver o saldo em vidas e em recursos; ver as casas e ruas, as pessoas andando, tímidas e relativamente alegres pela novidade.

O Ministério, centro inquestionável do poder político depois da derrocada do Pequeno Ditador da primeira época, tinha conseguido impor as regras de controle da pandemia que chegavam desde os primeiros momentos, em finais de fevereiro de 2020.

O Pequeno Ditador da primeira época, embora escolhido em eleições livres um ano e poucos meses atrás, havia simplesmente enlouquecido: surto psicótico atrás do outro, o mandatário tinha solapado cada traço de crueldade cívica com outros tantos atos de insanidade. Cada matiz ideológico e político conservador, cada deslize fundamentalista e intolerante, cada cara, frase e conteúdo violento, haviam se escondido atrás de uma psicose crescente e descontrolada.

Assim, o Ministério da Saúde virou um dia Ministério da Saúde Pública, atendendo a critérios que vinham da Revolução Francesa: reprimir os revoltosos, controlar os descontrolados e, obviamente, não podia deixar o pequeno ditador da primeira época agir com seus modos enlouquecidos.

Agora, passados mais de quatro anos, o vírus tinha sido derrotado e a vida começava a voltar ao normal.

Milhares de empresas tinham quebrado, centenas de empresários que haviam chamado a romper o isolamento rígido exigido pelo Ministério estavam presos em seus domicílios, muitos deles doentes, outros já curados. Carros incendiados em longas filas lembravam de três ou quatro tentativas de carreatas de ricos e outros indivíduos da alta classe média que haviam sido atacados pelos partidários do isolamento, -a grande maioria- muitas vezes enquanto eram fotografados e suas imagens enviadas aos jornais para exigir o boicote das empresas que esses cidadãos dirigiam e que clamavam pela ruptura da quarentena.

O mundo tinha mudado e Jorginho queria ver tudo de perto. Mas logo em seguida percebeu que um novo elemento estava à solta: a violência dos famintos, desempregados e sem-teto. Milhares perambulavam pelas ruas, depois de ter saqueado supermercados e lojas no primeiro ano, e tentado entrar em casas e prédios mais tarde, no segundo e terceiro ano da pandemia. Mas os violentos tinham diminuído: mortos ou presos, deprimidos ou conformados.
Mas Jorginho não tinha medo. Tinha sim, uma obsessão: voltar a ver Roberta, seu antigo amor não correspondido.


Continuará.
JV. São Paulo, 23 de agosto de 2024.