quinta-feira, 16 de abril de 2020

A peste. 2024. Parte 10

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A peste. 2024.
Parte 10
O desfecho.

Estava tão acostumado a não sair do apartamento durante meses e anos, que quando acordou aquele domingo de sol a inícios de setembro de 2024, se deu conta que havia deixado passar outra longa semana em casa, revisando os cadernos, fotografando e enviando para Marta aquilo que achava mais importante sobre a velha história de El Brujo López Rega. 
Sobretudo lhe interessavam aquelas passagens em que ficava muito claro que o armamento pesado -talvez toneladas dele- que haviam pertencido às formações terroristas de direita da Tríplice A, havia mudado de mãos, seguramente vendido pelos traficantes do próprio bando do Brujo depois da queda e exílio deste, ou por alguém do entorno militar de Isabelita Perón.
Mas se este era o tema que girava na cabeça de Jorginho depois da última saída e tentativa de achar Roberta, a outra obsessão recorrente -até em sonhos- era a própria Roberta, seu amor mal resolvido.
Sete dias antes tinha chegado até a casa da cunhada de Roberta -depois de ser abordado por Rogério, o ex-guarda do Ministério- e foi informado que, assim que foi levantada a quarentena, ela tinha ido ficar com uma irmã no interior e que voltaria em uma semana.
Saiu direto para tentar encontrar-se com Roberta, mas outra vez o destino desviou seu caminho: a menos de cem metros do apartamento, um carro com três indivíduos o esperava e, sem demasiado escândalo, o obrigaram a subir ao porta-malas, algemado e com um pano amarrado na boca, de modo de impedir qualquer grito ou resistência.

O carro andou pelo menos uma hora -cálculo difícil de confirmar, pois nessas circunstâncias o tempo voa, ou se estica mais do que o normal-, até chegar numa chácara ou fazenda, que Jorge imaginou na Serra da Cantareira, talvez em Mairiporã, onde saiu do carro, cheio de câimbras e dores musculares e de cabeça.
Um homem de mais de oitenta anos, sentado na varanda da casa de campo, o esperava, com um amplo sorriso:

— Fiquei sabendo que gosta de literatura; de contos fantásticos em particular, né? E também conhece bastante da história do meu país, certo?- perguntou o ancião, com um forte sotaque argentino. — Não vou lhe contar quem me passou o dado, mas sei que você tem algo que me interessa, porque fala de mim, e dos meus amigos no governo do Ministério da Saúde.

— Não sei quem pode ter lhe falado tudo isso de mim (mentia Jorginho, porque já imaginava quem o tinha traído), mas saiba que hoje em dia não adianta você ficar com todos os meus cadernos, porque todos estão copiados, e nas mãos de outras dez pessoas- respondeu, envalentonado pela própria declaração.

— Sim, sim. Já me imaginava essa sua prevenção. Mas eu não quero o caderno exatamente. Eu quero a sua palavra de que não vai contar, nem passar cópia, nem me denunciar a ninguém, seja na justiça, a polícia ou a imprensa- disse o velho que Jorginho já imaginava se tratar do capitão argentino Enrique Ventureira, traficante internacional de armas.

— E como você vai me impedir de não cumprir com a minha palavra, se eu decidir fazer tal promessa?- seguia envalentonado Jorge.

— Porque se você não cumprir a sua palavra, a sua amada Roberta vai ter um final trágico. Assim de simples. Podem levar eles de volta para casa. Eu tenho certeza que vai pensar na minha proposta- disse o ancião.

O que o ex-capitão argentino, agora traficante de armas não sabia, e nem o Jorginho imaginava, é que o alarme da sua desaparição e a denúncia à polícia e à imprensa já tinham sido dados. Roberta esperava num café, a cinquenta metros do apartamento do Jorge, para encontrar-se com Marta, que queria conversar sobre a paixão mal resolvida do amigo comum. Ambas viram quando ele era abordado pelos sequestradores e imediatamente avisaram ao Ministério, ao governo da área revolucionária e a imprensa.
A vida de Roberta podia começar a correr perigo a partir desse momento, mas a do Jorge estava salva: seu celular, que havia sido tomado pelos sequestradores, possuía um chip impossível de identificar. E as polícias de ambos setores já estariam atrás da localização da fazenda onde os traficantes se escondiam


Continuará

JV. São Paulo, agosto de 2024.


terça-feira, 14 de abril de 2020

A Peste. 2024. Parte 9. O caderno e a Máscara da Morte Rubra


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A Peste.  2024.
Parte 9.
O caderno e a Máscara da Morte Rubra


Entre os 16 cadernos que Marta e Jorge conseguiram trazer da casa da tia antes que se desatara a pandemia e começasse a quarentena fechada e obrigatória, tinha entrado um intruso altamente perigoso, tão letal como o próprio vírus. Mas foi só nas primeiras tentativas de saída às ruas, uma vez dominada a doença, que ambos notaram sinais de que algo estava fora do normal, se é que se podia chamar assim a situação em que viviam fazia quatro anos e meio. 

Na fracassada -depois voltaremos ao assunto- excursão em busca de Roberta, ocasião em que foi assaltado e, muito estranhamente, teve a arma devolvida pelo ladrão a troca apenas de um pouco de comida e de dinheiro, Jorge notou que havia movimentos fora do comum em torno das suas saídas, e assim acontecia com Marta, segundo ela lhe contou mais tarde.

Rogério Leo, o ex-guarda do Ministério que se havia passado para o lado do crime e que lhe tomou a Taurus 38, apareceu um dia, pela terceira vez em seu caminho. Ainda mais simpático que da vez anterior, tomou o braço da que parecia que iria ser novamente sua vítima e o afastou da luz da rua para falar o mais baixo e escondido que a circunstâncias permitiam.

— É uma advertência, e não me agradeça, que não dá tempo. Escuta bem: muitos dos milicianos apoiadores do Pequeno Ditador derrocado (ninguém queria nem lembrar do nome do Energúmeno) continuam trabalhando para o Ministério; e andam te procurando. Não tem pistas ainda, mas sabem que você tem os cadernos, e tarde ou cedo vão te pegar- disse.

— E qual é o problema com os cadernos? Por que querem encontrá-los? Porque é isso, né, querem os cadernos ou a mim?

— Não. Só os cadernos. Num deles existem provas incriminatórias que poderiam levar muita gente do atual Ministério e das milícias do Pequeno Ditador a uma corte de justiça internacional por crimes contra a humanidade.

— Jesus!- Obrigado, alcançou a dizer, quase tremendo, enquanto Rogério sumia na escuridão das ruas mal iluminadas. 

Jorginho não tinha certeza absoluta, mas já suspeitava qual poderia ser o caderno em questão. Assim que chegou no apartamento, abriu o caixote e procurou, caderno por caderno, até achar o que queria:

                      A “Guardia de Hierro” e o Bruxo López Rega

              "Entre 1972 e 1974 uma organização política (ou político-militar, segundo alguns conhecedores do assunto) pouco visível, e que levava por denominação o pomposo nome de “Guardia de Hierro” — Guarda de Ferro, em português—, se afiança como uma das várias partes integrantes das Juventudes Peronistas.

Segundo muitos dos seus simpatizantes, já nessa época a Guardia de Hierro tinha algo em torno de uns 15 mil militantes, contavam com uma direção bastante experimentada e bem formada politicamente e constituíam,  junto a outras organizações peronistas, o que ficou conhecido na sua época como a Organización Única del Trasvasamiento Generacional (OUTG) — ou Organização Única do Transvazamento entre Gerações— que pretendia servir de canal de passagem das experiências do peronismo dos anos de 1945-55 para os jovens dos anos ‘70.

Segundo conta Facundo, e mesmo sem que exista muita documentação a respeito, entre meados e finais dos anos de 1960, a direção política de Guardia de Hierro obteve uma entrevista pessoal com Perón em Madrid — na mansão do bairro de Puerta de Hierro, da qual alguns historiadores e curioso pensam, equivocadamente, que a organização tomou seu nome—.

Dizem os mais velhos que foi a partir desse encontro que se descartou totalmente a luta armada como uma via para o retorno de Perón do seu exílio, já que os dirigentes voltaram ao país totalmente convencidos de que no havia as mínimas condições sociais nem políticas como para que uma guerrilha pudesse desenvolver-se num país como a Argentina daquele momento e naquelas circunstâncias."

Mas não era apenas isso, Jorginho sabia qual era o assunto. O pressentia e sabia por onde devia buscar nos cadernos.



                            "Enquanto isso

                         "Por essa mesma época, — pouco tempo depois do nascimento da agrupação  Guardia de Hierro no ano 1962, vinculada ao Gallego Alejandro Álvarez e a Héctor Tristán—, José López Rega era iniciado no rito umbanda de origem afro-brasileira durante uma viagem ao Brasil, a inícios de 1963. Contam as más línguas que, num terreiro da periferia de Florianópolis, depois de sacrificar um boi, o Bruxo, vestido com uma túnica branca, foi molhado com o sangue do animal e ficou isolado numa choupana, na qual permaneceu a portas fechadas durante 7 dias, sem tomar banho nem lavar-se, porque isso era um requisito essencial para a sua iniciação no rito.

Ao sétimo dia, ao sair do isolamento, começou a ser chamado de "Hermano Daniel" — ou Irmão Daniel—, e dizem que já levava no pescoço uma cruz invertida, o que alguns, ainda dentro do rito, consideram se tratar de um verdadeiro “símbolo do Anticristo”.

Em Buenos Aires, enquanto isso — um dirigente de origem anarquista que tinha militado em diversos âmbitos sindicais e participado ativamente na resistência peronista, entre 1955 e 59, junto com o lendário John William Cooke e outros “duros” da luta popular— e o Gallego Álvarez, que tinha uma formação  ideológica de esquerda como militante secundarista da Unión de Estudiantes Secundarios, e também lutador  na resistência peronista, preparavam as bases para que, dez anos mais tarde, Juan Perón os recebesse em Puerta de Hierro.

E já nos anos 70, na mesma época em que Álvarez e Tristán ajustavam sua Guardia de Hierro aos desígnios do velho chefe exilado, na condição de “formações especiais”, José López Rega completava sua iniciação umbandista com sucessivas viagens ao Brasil, sobretudo a Porto Alegre, uma cidade que ele considerava como um dos centros mais importantes do rito umbanda.

Além de tudo isso, para reforçar a ligação que ele mesmo fazia entre o umbandismo e a macumba, por um lado, com as estruturas mais conservadoras do poder político mundial pelo outro, o nome de López Rega se destaca também naquela época como o “irmão Daniel” da logia maçônica P-2 —a famosa Propaganda Due— do Venerável Mestre Licio Gelli.

Seu nome foi achado nas fichas que detalhavam os membros da loja, depois de uma revista que a polícia italiana fez em março de 1981 na casa de López Rega em Arezzo, a que ele chamava de "Wanda", por uma grande coincidência, o mesmo nome da esposa de Licio Gelli, o Venerável Mestre."

Ainda não chegara Jorginho nesses cadernos ao que ele -tinha certeza disso- era o motivo de aflição dos milicianos do Ministério e de ameaça a sua própria vida, meio século depois dos acontecimentos relatados nos contos da tia de Marta.

Uma semana depois, e mediante muitas idas e voltas, zig-zagues pelas ruas do centro velho e três entradas e saídas do metrô, Jorginho e Marta tiveram certeza de não estarem sendo seguidos e se encontraram num velho boteco semiabandonado na Rua da Moóca.
Marta deixou com Jorge outros dez cadernos e lhe desejou sorte, pois se não estivessem neles o que ele imaginava, dificilmente iriam se encontrar tão cedo para completar o translado do restante dos contos.


Jorge chegou em casa, ingué parecia ter ido atrás dele nem esperá-lo à porta do apartamento. Leu, e no quinto dos cadernos já achou algumas pistas:

                               "López Rega foi ministro de Bem-estar Social durante o governo de Héctor J. Cámpora, e mais tarde, quando este último foi despejado do poder pela direita peronista, de Raúl Alberto Lastiri — que, por uma dessas grandes coincidências, era seu genro—, e finalmente dos gabinetes do próprio Juan Perón e de Isabel Martinez, quando o velho líder morreu.
Usou e abusou à vontade das enormes quantidades de dinheiro da loteria federal argentina e dos cassinos. E tudo isso deu ao Bruxo uma grande autonomia financeira que lhe permitiu realizar todos seus planos políticos e ao mesmo tempo, amassar ilegalmente uma considerável fortuna pessoal.

Mas a maior realização do Bruxo López Rega foi a organização e a colocação em marcha da Alianza Anticomunista Argentina ou Triple A, grupo armado ilegal, clandestino e para-estatal.  Desde a sua sala de chefe do Ministério de Bem-estar Social, em frente à  Plaza de Mayo, o sinistro bando de assassinos realizou inúmeras ameaças de morte e finalmente executou centenas de atentados a bomba ou metralha, e assassinatos entre 1974 e meados de 1975.

Obrigado a renunciar a seu cargo depois das grandes greves e manifestações de julho de 1975, o Bruxo fugiu para Europa com un diploma oficial de fantasia outorgado pela presidente Isabel Perón. Esteve prófugo da Justiça argentina durante dez anos. Foi detido nos Estados Unidos e transladado preso até a Argentina, onde morreu — pela segunda vez, vamos repetir novamente— em junho de 1989, enquanto era processado por cargos de múltiplos homicídios, associação ilícita, corrupção e sequestros."

Jorginho estava chegando perto, mas nada ainda do que ele imaginava. Continuo procurando até que, já de madrugada, quase deu um berro quando achou o que suspeitava, segundo o que a tia de marta tinha contado:


                                         "O começo do fim

                                      “— Senhores, estão cercados. Coloquem suas armas no chão, e deixem as mãos para cima. Meus soldados vão revistá-los. Em seguida, dêm a meia volta e vão para suas casas—.”

Era o entardecer do Sábado, 19 de julho de 1975, e o coronel Jorge Felipe Sosa Molina, chefe do Regimiento de Granaderos a Caballo General San Martin, o corpo que, tradicionalmente, se encarrega de proteger os presidentes argentinos, não podia acreditar no que via.

"Espingardas Itaka, as então modernas metralhadoras israelenses Uzi, e outras ainda mais novas importadas da Bélgica, pistolas automáticas e até mesmo algumas granadas de mão, haviam sido deixadas no gramado da residência presidencial de Olivos. Minutos antes, todo esse arsenal estava nas mãos da custódia de José López Rega que, abandonado pelos seus tradicionais suportes políticos, estava prestes a deixar o país.
Cerca de duas centenas de civis, muitos deles membros da Triple A, a organização terrorista de extrema-direita, que arrasou com a Argentina dos anos 70, criada sob o amparo de López Rega, tinham tentado cercar e tomar a residência de Maria Estela Martinez de Peron, na tentativa de salvar sua chefe; não teriam conseguido, mas por muito pouco não desencadearam uma tragédia.

"Caindo já o sol de inverno, um dos oficiais dos Granaderos, disse a Sosa Molina que o grupo armado estava tentando forçar os portões de entrada para a residência para os lados da rua Villate.

"— O que vamos fazer agora? — quis saber o oficial. Vamos  impedir a entrada deles? — Sosa Molina disse que não. Mas pediu o deslocamento de quatro veículos blindados M-113 – carriers, e espalhou um esquadrão reforçado com cento e cinquenta granaderos para embolsar a banda lopezreguista que, finalmente, entrou nos jardins da residência para cair direto na armadilha.
Em questão de minutos, sem disparar um único tiro, um dos mais poderosos exércitos privados no país tinha sido desarmado.

"— Fique encarregado de tudo isto— Sosa Molina disse ao chefe da Casa Militar, o Capitão Enrique Ventureira, depois de dar uma última olhada para o pequeno arsenal. O marinheiro não mostrou muita surpresa. Desta vez, a quantidade era bem maior, mas não foi a primeira vez que a guarda militar de Olivos, que revistava um por um os carros que entravam na residência, teve que sequestrar de dentro do veículo do Ministério de Bem-estar Social armas e explosivos em grandes quantidades." 

Bingo! gritou Jorge. Era isso. O tal capitão argentino tinha sido detido e demorado por mais de doze horas no aeroporto do Galeão em 1998, quando caiu sobre ele a denúncia de tráfico internacional de armas. Conseguiu uma boa fiança e desapareceu. Em 2006, um obscuro capitão reformado do exército brasileiro, deputado no congresso nacional, era seguido pela Interpol e vigiado pelo Serviços Reservados das forças armadas pela comprovada conexão com o grupo de traficantes que parecia comandar Ventureira.
Acabada a ditadura militar de 1976-1983 depois de perdida a guerra nas Malvinas, milhares de armas sumiram dos quarteis, incluindo mísseis Exocet, os que tinham sido usado no conflito no Atlântico Sul. Grande parte dessas armas deviam estar, então -e essa era a causa da preocupação dos milicianos- nas mãos da segunda geração dos traficantes cuja cabeça mais visível nos anos 90 tinha sido Enrique ventureira.

Esse caderno era, para Jorge e Marta, o príncipe da Máscara Rubra que tinha entrado, pior que a peste, na sua vida.

Continuará.

J.V. São Paulo, agosto de 2024.








domingo, 12 de abril de 2020

Los Maquis en Peraltilla




Los Maquis en Peraltilla
Por Alfredo Coronas Nadal




El 4º día de la Fiesta Mayor del año 1947,  hacia las 10 de la noche, tomaron el pueblo los Maquis, era un pequeño grupo formado por siete miembros.
Según  sus comentarios, hacía varios días que estaban vigilando el pueblo desde las sierras colindantes.
Los Maquis fueron  guerrillas compuestas por soldados republicanos  que se  exiliaron a Francia al termino de la Guerra Civil Española. 
Muchos de los exiliados se integraron en las fuerzas de resistencia francesa (maquisards) frente a los alemanes, y una vez finalizada la II Guerra Mundial, según se dice, fueron enviados a España para luchar contra el régimen franquista ¡quizás engañados! porque ellos creían, o les hicieron creer, que cuando llegaran a España el pueblo se levantaría en armas y que los aliados les ayudarían,  pero no fue así.
Los Maquis que estuvieron en Peraltilla fueron con diferentes fines: para exigir a algunas familias fuertes sumas de dinero como impuesto revolucionario, para ejecutar al que fue primer alcalde después de terminada la Guerra Civil y para aprovisionarse de víveres en la tienda, pues según parece iban huyendo hacia la frontera francesa.
Recuerdo que aquella noche, en nuestra casa, estábamos cenando en el patio y llamaron a la puerta; como no estaba cerrada con llave, mis padres dijeron, -adelante-, y vimos aparecer al Sr. Hipólito Craver con tres maquis  armados con metralletas, vestidos bastante desarrapados y cubiertas sus cabezas con sombreros de fieltro y barba de varios días. 
Entraron y, dirigiéndose a mis padres, les dijeron que abrieran la tienda, pues querían varios artículos; recuerdo que en un saco fueron metiendo artículos de alimentación: salchichones, chorizos, longanizas, quesos, carne, pan, etc.; uno de ellos pidió unas alpargatas, otro que parecía el jefe, preguntó lo que valía todo aquello, pero el otro que estaba en la tienda con él, dijo que de pagar nada de nada, pero el que parecía el jefe dijo, a esta gente hay que pagarle todo, pues son buena gente, y efectivamente, a pesar de que mis padres llenos de miedo, no querían cobrar nada, todo lo pagaron.
Al salir de la tienda, uno de ellos le dijo a mi hermana María, - yo he bailado contigo, más de una vez,  para las Fiestas-, y a mi hermano Mariano, –contigo hemos ido de bodegas algunas veces-. 
Parece ser que este maqui era de Pozán.
El maqui que fue encargado de ejecutar a D. Julián Cavero Mediano, que había sido el primer alcalde después de la Guerra Civil, según comentarios del mismo maqui, después de estar charlando un buen rato con él lo dejó vivir, porque se dio cuenta de que era un buen hombre, que no merecía la muerte.
Otros maquis fueron a las casas de otros vecinos que habían ostentado cargos y les exigieron fuertes cantidades de dinero, que algunos de ellos no pudieron pagar en su totalidad, pues las cantidades eran exorbitantes para aquellos tiempos.
Al día siguiente nos enteramos que en el término municipal de Salas Altas, habían ametrallado a cuatro Guardia Civiles, de los cuales uno murió y los otros sufrieron heridas de bala. 
Se creyó que fueron estos mismos maquis en su retirada a Francia, que como curiosidad siguieron la misma ruta que los soldados republicanos en la desbandada del año 1938.

Por Alfredo Coronas Nadal

A Peste. 2024. Parte 8. A Máscara da Morte Rubra

Livro: A Máscara da Morte Rubra - Edgar Allan Poe :: Conhecimentos ...


A Peste. 2024.
Parte 8.
A Máscara da Morte Rubra

Não conseguiu levar mais do que 16 caderno das duas caixas que a de Marta lhes oferecera. Jorginho deixou outros 48 que passaria para pegar dias depois. Já não pode fazê-lo porque a pandemia do corona vírus começou como uma explosão a meados de março de 2020, e tanto Marta como Jorginho tiveram que se isolar nas suas casas -cada um na sua- e nunca mais puderam pegar o conjunto dos contos e projetos de romances, alguns dos quais falavam detalhes pouco conhecidos da vida do misterioso El Brujo López Rega, manda-chuva do governo criminoso de Isabelita Perón entre os anos de 1974 e 1975, ao mando da banda fascista conhecida como Tríplice A.
Mas, como tantos outros projetos literários da carreira fracassada de Jorge, a pesquisa e as escritas ficaram no papel depois de três ou quatro meses de isolamento e diversas tentativas de telefonemas, conferências por whatsapp e skype, sempre em torno do tema dos cadernos que continham detalhes novos sobre El Brujo López Rega.
Um dos cadernos, porém, terminou sendo para Jorge uma espécie de "Máscara da Morte Rubra".
Como no conto de Edgar Allan Poe, em meio de uma peste mortal, em que a população está sendo dizimada de forma implacável, Jorginho vê a diário nos noticiários da TV o desprezo do Pequeno Ditador, que igual ao jovem príncipe Próspero tece planos mirabolantes a fim de vencer a própria morte. Isolado, junto com uma grande turma de amigos e aduladores, o Príncipe do conto de Poe se afasta do mundo, do mesmo modo que o Pequeno Ditador se isola da ciência, a imprensa e a opinião pública mundial para se fechar nos próprios devaneios. A peste entra, porém, no meio da festa, contagia todos os convivas e os mata em poucas horas.
Mas, um dos cadernos da tia de Marta jogou nesses primeiros quatro meses de isolamento o mesmo papel do mascarado da Morte Rubra no conto de Poe.

Continuará.
JV. São Paulo, agosto de 2024.

¡Viva el maquis! ¡Viva Miguel Buenaventura Blesa, "Amador"!


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¡Viva el maquis!

Miguel Buenaventura Blesa "Amador" fue uno de los últimos sobrevivientes de la Agrupación Guerrillera de Levante y Aragón.
"Amador", - ese era su nombre de combate como guerrillero-, falleció el 20 de febrero pasado en Francia, donde vivía desde el exilio, a los 96 años de edad.
Vayan estas líneas como recuerdo y homenaje a un combatiente de origen muy humilde que luchó valientemente en la España franquista por la libertad y por la democracia en tiempos de terror y de espanto.
Hasta la victoria siempre, viejo luchador!

La ilustración es de la tapa del libro "¡Viva el maquis! Tras las huellas de maquis, guerrilleros y clandestinos en el Bajo Aragón", de Amadeo Barceló.

Miguel Buenaventura Blesa, entre los últimos sobrevivientes de la Agrupación Guerrillera de Levante y Aragón (AGLA) nació el 5 de enero de 1924 en la Masía de Alcafas Bajas, en el término municipal de Valbona, comarca de Gúdar-Javalambre, España. 
Muy niño trabaja como pastor con su padre y un tío en la Venta de Chilla-Pajares, donde  vivía  su familia. Allí los encontró el estallido de la Guerra Civil en 1936.

Al avanzar el ejército sublevado de Franco, el ganado que cuidaba como pastor, él y toda su familia, son evacuados por las tropas republicanas a Fuentelespino de Moya, en Cuenca, primero y a Antella, en València, más tarde. 
Al terminar la guerra, en 1939, vuelven a Valbona, pero les roban todo el ganado. Después de levantar la cosecha, vuelven a Fuentelespino, donde tienen amigos, a cuidarles sus ovejas. Como en Fuentelespino no les va mejor, vuelven en 1940 para sembrar una nueva cosecha y trabajar como pastores. 
A los 17 años Miguel va a trabajar de pastor en la Masía de la Capellanía, de la Puebla de Valverde, hasta que lo llaman al servicio militar en 1945.
Al volver, en 1947, las cosas han cambiado. El nazi-fascismo fue derrotado y juzgado en toda Europa, y la dictadura franquista teme una invasión aliada y sufre el repudio y el aislamiento internacional. Guerrilleros antifranquistas llegados de Francia, los Maquis, aparen de sorpresa en Teruel, alimentando una corta esperanza de una rápida caída del odiado dictador Francisco Franco.
En muchos pueblos de Mora de Rubielos se reorganiza clandestinamente la CNT y se forman núcleos locales de la Unión Nacional, impulsada sobre todo por el Partido Comunista de España (PCE). Se crea una red muy organizada por toda la actual comarca de Gúdar-Javalambre, formada en su mayoría por combatientes republicanos que acaban salir de la cárcel y por muchos jóvenes que eran apenas unos niños durante la Guerra Civil, como es el caso de Miguel.
Pero la dictadura reacciona con violencia extrema para acabar con cualquier oposición. A inicios de 1947, la red clandestina es descubierta y desmantelada. Vuelven las prisiones masivas, los juicios sumarios y las ejecuciones extrajudiciales. Muchos huyen de los pueblos y se incorporan a la guerrilla. Un altísimo número de jóvenes de poco más de veinte años salen de Valbona para refugiarse en el campamento guerrillero del Monte Carramacho en los primeros meses del año, unos veinte. 
Miguel lo hace un año después, mientras tanto, esconde en su casa a los que llegan de otros pueblos como Manzanera o Albentosa, facilitándoles el camino al Carramacho, terreno muy conocido por él. Después, temiendo ser preso, se esconde en la Masía del Ciruejo, en el término de la Puebla de Valverde.
En 1948, a los 24 años, abandona su escondrijo para entrar al 17º Sector de la AGLA, que actúa en las Cuencas Mineras, Sierra de Gúdar y sur de Castellón. Entra en el grupo de “Rubio” y a partir de entonces “Amador” va a ser su nombre de guerrillero. Durante los cuatro años de su vidaa en el monte participa en acciones armadas y realiza funciones de enlace con los sectores 11º, al sur de la provincia de Teruel e interior de la de València, y 23º , entre Maestrazgo y Tierras del Ebro.
Cuando la dirección del PCE ordena a la AGLA evacuar por completo la región, en 1952, “Amador” es uno de los 17 últimos guerrilleros que, a pie, abandonan definitivamente las sierras de Levante y Aragón, en un viaje épico que los va a llevar hasta Francia atravesando los Puertos de Beceite, el Ebro y toda Cataluña hasta los Pirineos, donde los esperan los guías de pasos que los ayudan a cruzar clandestinamente la frontera y les acompañan hasta Toulouse. 
En Francia, cada uno de ellos redactó su biografía y un informe de su estancia entre las guerrillas. Estos informes se conservan en el Archivo Histórico del PCE, entre ellos los informes de “Amador” y sus compañeros “Julián” y “Chaval”.
Al llegar a Francia, en plena Guerra Fría, el PCE está ilegal y perseguido. Los guerrilleros antifranquistas que son detenidos en suelo francés son llevados hasta la frontera y entregados a España. Esto ocurrió con Doroteo Ibáñez, “Ibáñez”, del grupo de “Los Maños”, juzgado y fusilado en Paterna, Valencia. Otros, como “Amador”, “Grande”, Chaval”, “Matías, “Angelillo”, Rubio”, etc. logran burlar a la Gendarmería con la ayuda que del Partido, escondiéndose en Francia e incluso entrando clandestinos a España o refugiándose en la Europa Oriental y en la propia URSS.
“Amador” fue uno de los 27 guerrilleros que, dirigidos por Florián García “Grande”, emprendieron el camino hacia Francia, llegando tras 35 noches de marcha.

Javier Villanueva. São Paulo, Brasil, abril de 2020.
Ver también: Más allá de la utopía: Agrupación Guerrillera de Levante. Por Fernanda Romeu Alfaro

sábado, 11 de abril de 2020

A Peste. 2024. Parte 7.

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A Peste. 2024.
Parte 7.

Jorginho não conseguiu tomar coragem para encarar a rua novamente ate uns dez ou doze dias depois da sua primeira tentativa.
Saiu direto para a casa da Ana Lúcia, prima de Roberta, que sem dúvidas poderia ter alguma notícia ou informação sobre sua amada.
Apalpou a Taurus 38 que havia colocado nas costas, debaixo da jaqueta e com quatro balas no tambor.
Não havia andado nem duzentos metros quando um homem pulou de dentro de uma porta e lhe apontou uma faca no pescoço. Muito lento pela falta total de costume em lidar com uma arma, Jorge tentou puxar o revólver, mas o assaltante foi mais rápido, seguramente por ser mais experiente, notou o movimento e exigiu que lhe entregasse a Taurus.
Entregou, e na hora se deu conta que o ladrão era um dos guardas do Ministério que o haviam enquadrado na primeira saída.
Já quase se sentindo mais seguro ao comprovar a identidade do assaltante, Jorginho perguntou o óbvio: ––E por que mudou de lado, se me permite? ––Por dinheiro, claro, ganho mais assim que com o salário de guarda de segurança pública.
Já quase se sentindo mais seguro ao comprovar a identidade do assaltante, Jorginho perguntou o óbvio: ––E por que mudou de lado, se me permite? ––Por dinheiro, claro, ganho mais assim que com o salário de guarda de segurança pública.
Sem mais palavras, se afastaram um do outro, mas não tinham passado nem cinco minutos quando o assaltante reapareceu:
––Escuta. Quero propor a você o seguinte: eu devolvo a sua arma a troca de um pouco de comida e algum dinheiro, se tiver. Vamos! Jorginho não tinha alternativa, e a proposta era boa. A arma era cara e também representava sua única segurança em tempos tão tenebrosos.

O curioso episódio ficou dando voltas na cabeça do Jorge até virar um pequeno conto. Sim, porque Jorginho era escritor.
Não era o que chamaríamos de um “escritor de sucesso”. Havia parado de tentar publicar um romance que vinha escrevinhando durante os últimos nove anos quando, depois de seis ou sete apresentações em concursos literários viu que ninguém se interessava por aquele seu texto, justamente o que ele considerava o mais importante e definitivo da sua carreira.

De fato, já tinha escrito e publicado bastante: foram crônicas, contos, alguma poesia, e um par de mini romances para a revista “O Novo Cruzeiro”, que fundara em 1994 com dois colegas do folheto cultural “ProHispam”, da qual tirava seus magros salários fixos. Pobres, mas garantidos e seguros salários a cada quinzena.
Trabalhou também como cartunista, completando mais de 190 publicações em diversos jornais e revistas de São Paulo, Juiz de Fora, Santa Maria de Rio Grande do Sul, e Campinas, entre crônicas, contos, romances e quadrinhos.
E ainda escreveu para a televisão a série “Planeta das Mulheres”. Em 1998 lançou sua primeira peça teatral, “Uma mulher desnuda ao sol”, e com ela ganhou o Prêmio Camões Jovem.
Depois passou mais de dez ou doze anos opacos e abúlicos, rabiscando no Blog Carpindo, onde reuniu suas crônicas, e chegou à marca de um milhão de visitantes. Mas, embora premiado, muito lido no seu blog, e autor de treze livros, Jorge Sánchez era consciente de que nunca passou – e provavelmente não passaria- de um escritor medíocre
Na realidade, ele era um técnico formado aos 21 anos em meteorologia, que mais tarde foi administrador de empresas, professor particular de inglês, de datilografia primeiro e de informática depois; e, nas horas vagas – que eram muitas–, um especialista em futebol brasileiro. Em síntese, um eclético total.
Nos últimos dois anos, até uns poucos meses antes da primeira onda da grande pandemia em 2020, e deprimido pela rotina do trabalho e pelos sucessivos fracassos de crítica das suas obras, Jorge caiu numa depressão que o confinou durante meses a fio na frente das telas da Netflix, alternando apenas com as palavras cruzadas e os intermináveis quebra-cabeças. Enquanto isso, trabalhava como jornalista free-lancer, escrevendo sem nada de vontade algo de ficção adulta e juvenil por encomenda, e fazendo roteiros eventuais para o cinema, ou atuando como consultor no canal de TV mais conhecido – e o mais criticado- do país.
Foi nessas circunstâncias que, numa viagem curta a Espírito Santo, conheceu Roberta, de quem se apaixonou, e que sem motivos aparentes o abandonou repentinamente, poucos meses e muitas conversas depois.
Roberta e Jorge tiveram semanas de entusiasmo mútuo, gastando horas do dia e da noite em longos papos por telefone, e até por cartas enviadas e recebidas a cada dia pelo correio. Falavam de literatura, é claro, e ele pensava que a seduzia com os seus muitos conhecimentos superficiais de tudo, sobretudo da prosa anglo-saxã que tanto obsessionava a Borges, outro dos seus temas preferidos.
Roberta insistia em não avançar no relacionamento, em não abrir espaços para o amor e muito menos ainda para o sexo; ela tinha medo de ser magoada; ficava apavorada pela ameaça de ser rejeitada, dizia, e falava dos sofrimentos com a mãe e o pai.
Mas foi ela quem finalmente o rejeitou, não sem antes dar-lhe uma boa oportunidade para ele cair rendido aos seus pés, e ela se revelar como uma insensível sedutora.
Roberta o deixou de quatro – literalmente – depois de lhe oferecer os beijos, as carícias e o sexo mais delicioso que Jorginho nunca tivesse imaginado na sua vida.
–– Foi ridículo- disse ele. –– Um dia qualquer, semanas depois de nosso primeiro encontro, que durou seis dias e cinco noites, liguei para falar apenas um oizinho, e ela me disse que estava embarcando para São Paulo e que passaria em Congonhas em um par de horas, rumo a Curitiba.
Jorge achou estranho o fato de ela não ter lhe avisado antes, mas, mesmo assim, largou tudo o que estava fazendo no seu birô editorial em Guaianazes, e pegou metrô e dois ônibus para chegar à zona sul de São Paulo, esquecendo três clientes na sala de espera, em pleno expediente, a mais de 40 km de onde pensava encontrar a sua amada. E a encontrou, sim, mas depois de esperá-la durante meia hora para, em menos de quinze minutos e café expresso mediante, separar-se com um longo beijo frio – da parte dela - que o deixou sem chão.
–– Nunca me senti tão pateta – repete Jorginho, ainda lembrando da frieza repentina de Roberta.
–– Mas tudo tem uma compensação na vida, e também nada acontece por acaso. Foi na saída de Congonhas, mais afundado na depressão ainda do que já havia estado nesses últimos meses que, distraído, quase derrubou uma jovem mulher que entrava apressada ao hall principal do aeroporto carregando desajeitadamente uns cinco ou seis livros.
–– Caíram todos no chão e me apressei a recolhê-los – diz Jorge-, e nesse momento a minha vida mudou, pelo menos a minha vida literária, por completo-.
Um dos livros espalhados no chão era “O fusca amarelo”, da sua autoria, e um dos títulos menos conhecidos no mercado embora mais trabalho tivesse tido Jorge para escrever, editar e vender; outro dos seus fracassos literários, digamos.
Mas Marta – que era a desconhecida com a qual teve o desastrado encontro– reconheceu de imediato no rosto do trapalhão o escritor da foto na quarta capa de um dos livros caídos e espalhados pelo chão.
Com os olhos fixos na publicação ela disse, muito devagar:
–– Mas...desculpa, você é...Jorge Sánchez, né?-
–– Sim, eu...perdão pelo desastre, eu...-
–– Gostei do seu livro. Sim, gostei muito. Posso fazer um par de perguntas? Está com tempo? – ofereceu um cartão, e assim Jorginho soube que Marta era gerente da livraria do aeroporto e que o tempo parecia não ser seu problema.
Passaram um par de meses depois do encontro desajeitado de Marta Rotondo e Jorge, até que o escrevinhador descobrisse o caminho das pedras que deveria estar traçado desde sempre para que ele, já entrando na idade mais madura – que ele entendia como o início da velhice – pudesse por fim saborear a doçura do sucesso. Mal sabiam eles que, em poucas semanas, o mundo viraria um caos com a chegada da peste -a pandemia do corona vírus- e que as descobertas na literatura e na vida já não seriam as mesmas.
Tinham conversado sobre diversos temas, principalmente dos livros de Jorginho e das suas várias tentativas de acertar com um bom romance, assim como dos seus fracassos sucessivos. Marta, porém, parecia querer algo mais do que conversas e o olhava com carinho crescente. Mas ele sempre desviava o olhar, até que numa das tantas tardes de conversas no café de Congonhas, ela fez um movimento de pálpebras e cílios que de imediato lembrou Jorge dos olhos esverdeados e tristes, sempre a um ponto de chorar da já quase, quase esquecida Roberta.
E em seguida rememorou a chuva no telhado naquela madrugada - a última noite de amor em Espírito Santo-, as gotas furando o forro e pingando quentes no seu peito enquanto Roberta se mexia em cima dele, gemendo e fazendo imaginar que aquilo era amor, e que além de tudo podia ser eterno.
Mas de repente, Marta disse algo que o tirou do fascínio e parou de sonhar acordado:
–– Sabia? Minha tia Rosa, a espanhola, aquela que já te contei que escreveu vários livrinhos curtos contando suas memórias, era cunhada de El Brujo López Rega, ministro e alma-máter do governo de Isabelita Perón, nos conturbados anos '70 na Argentina.
Continuará.

Javier Villanueva. São paulo, agosto de 2024.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

A Peste. 2024. Parte 6


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A Peste. 2024.
Parte 6

A primeira surpresa de Jorginho foi saber que havia um enorme território liberado, com um autogoverno popular e revolucionário, que havia enfrentado e derrotado a ditadura do Ministério da Saúde.
Eram grandes territórios que se espalhavam nas principais capitais do país e que, como em todos eles haviam sido capturadas armas e aeronaves de todos os tamanhos, muitas dessas áreas estavam comunicadas entre elas, com um apoio e solidariedade consistentes em alimentos e suprimentos de todos os tipos.

A segunda surpresa foi quando ficou sabendo que, em menos de cinco dias, a região liberada tinha chegado aos fundos do seu prédio no centro de São Paulo, e que já se estendia de Santo Amaro ao sul até o pé da Cantareira ao norte, e da Lapa até a Vila Formosa ao leste.

Ainda por cima, a pouco mais de um quilômetro do centro, estendendo-se até o bairro da Aclimação e uma parte de Ipiranga, o PCC e outros grupos de narcos tinham tomado o controle firme da área e não permitiam que o Ministério enviasse nem suas tropas nem suprimentos. Eles cuidaram da saúde durante a epidemia e agora, igual ao majoritário território liberado pelas esquerdas, pretendiam ampliar-se a outras áreas.

Jorginho não saia do estupor e se debatia pensando em como iria cumprir com o seu propósito de finalmente sair do apartamento e procurar sua amada Roberta.
Imaginou passeios pelos sebos do centro, como se estivesse em Paris, atrás da Maga do Jogo da Amarelinha, mas depois da triste visão da primeira livraria de usados fechada desistiu da tática. Os vendedores de livros em geral, ou tinham falecido nesses longos quatro anos, ou haviam falido e fechado seus sebos.
Pensou em andar pelos parques e alamedas, mas cadê elas em São Paulo? com certeza não seria por aí que iria se encontrar com a mulher dos seus sonhos mal resolvidos.

Por outro lado, Jorginho já andava pelos 55 anos de idade, e embora se considerasse ainda jovem, não conseguia se livrar da lembrança do Diário da Guerra do Porco, que conta como num certo dia, de modo inesperado, os jovens de Buenos Aires decidem que quem tem mais de cinquenta anos é um inútil para a sociedade. E lançam, desse modo, uma misteriosa e terrível "guerra aos porcos", na qual os jovens fazem uma caça aos velhos com a clara intenção de eliminar aqueles que hoje chamaríamos de "idosos".

Jorginho e o seu grupo de amigos, moradores do mesmo apartamento havia anos, muito antes do início da pandemia, já estavam aposentados, e se denominavam entre si, e em tom de brincadeira "os rapazes"; mas agora se sentem temerosos e desprevenidos no meio da violenta revolução que acontece na zona liberada vizinha, os tiroteios constantes na área dos narcotraficantes, e as forças do Ministério; pensam que isso pode levar a um conflito também geracional que os obrigue a alterar todos seus hábitos e a improvisar uma defesa desesperada.

Jorginho quer sair à procura de Roberta, mas é consciente que deve também aprender a deslocar-se pela cidade em horas bastante improváveis, e esconder-se dos guerrilheiros do território popular, e muito mais ainda dos narcos, dos que agora receia.
Porém, no meio do terrível conflito, Jorginho sabe que, assim como no romance de Adolfo Bioy Casares floresce o amor secreto entre o velho Vidal e a jovem Nélida, do mesmo modo que a sua eterna paixão por Roberta, mesmo que mal resolvida, nunca vai morrer, e precisa encontrá-la rapidamente.

Continuará.

JV. São Paulo, agosto de 2024.