Missão quase impossível:
ajustiçar o tirano Videla.
Parte 3
Tomando
um “pingado” de café com leite e pão com manteiga no Bar Riviera, e depois de
olhar a programação do Cine Belas Artes, o Índio e Juancito conversam sobre o
trato que estão a um passo de fechar com o Diabo, e sobre a difícil missão de
dar cabo no tirano Videla:
-Olha,meu,
acho bem complicado esse plano do Malvado; primeiro, o velho Milesi tem que
convencer na pele de um oligarca italiano, e já sabemos que só arranha um pouco
do dialeto ligur; ele chegou muito jovem na Argentina. Segundo, eu tenho que
arrasar na representação do mercenário argelino; nem sei falar bem o francês,
muito menos o árabe! Ok, posso ficar quase mudo, já que milico não fala muito.
Mas, e se o Almirante Massera não se interessar pela Cristal?...já sei, é
difícil, é um marinheiro velho e putanheiro, e a mulata é linda; mas, e se por um
acaso essa noite ele não quiser saber de mulher?- resmungava o Índio
Santiago e pensava que Pedro Milesi, agitado do jeito que era, já devia ter
saído pra rua bater pernas antes que o Diabo aparecesse de novo com a encheção
dos pactos de sangue ou de tinta nankin.
-Pois é,
Santiago, e ainda tem a pior parte: e se o Videla não estiver nem ai com o que
o Massera decida fazer? E se o tirano número 1 decidisse essa noite não ter
ciumes do tirano número 2?- conjecturava Juancito quase sem olhar para
o Índio, apenas como se falasse para si mesmo.
O velho
Pedro Milesi entrou e largou um “Estadão” em cima da mesinha ensebada do bar,
bem na vista dos dois camaradas:
-É mais
conservador do que a Folha de SPaulo, La Nación e Clarín juntos, mas pelo menos não faz
de conta que é moderno e progressista; leiam- e mostrou com um dedo
curto e roliço a notícia na manchete da página três.
–Estão
vendo? No Brasil nem a vinda do tirano da Argentina impressiona. Os tiranos
daqui são mais mansos e mais eficientes. A ditadura anterior, a de Ongania e
Levingston durou sete anos na Argentina, e não creio que o assassino Videla
dure mais do que isso. Agora os milicos daqui, esses sim, vão chegar aos vinte
anos ou mais de ditadura. Olhem a notícia: Videla só ficará uma hora na
recepção do consulado. Já passei na rúa Araújo, não tem ninguém cuidando do
predinho onde fica a representação argentina, mas mesmo assim não vai ser fácil.
-Velho,
você já passou? São oito e dez da manhã! Você não durmiu na pensão que eu
deixei paga? Não vai me dizer que saiu de farra por ai!- tentou brincar
o Índio e em seguida se deu conta da besteira, parecia o Gordo Lowe falando
para o Juancito que não fosse gastar a grana da última expropiação em mulheres. Justo com
o Juancito, que é um monge budista! E agora ele, se fazendo de engraçadinho com
o velho anarco para quem o amor é livre, sim, mas é um compromisso, uma obra de
arte que se constroi de baixo pra cima, como as estátuas, sem traições, sem
pulos de cerca. Mas o velho nem deu bola e continuou com o comentário:
-Vamos
montar esse plano de uma vez e evitar assim que o besta do Satanás siga
querendo mandar em
tudo. Afinal sempre fui “sem deus nem patrão”, não é
agora que vou ficar obedecendo um chifrudo sobrenatural!- e na mesma
hora, claro, o Mandinga se apareceu em pessoa, assim do nada, acotovelado na
mesa, vestido de gaúcho, com botas, bombachas, cinto cravejado de moedas e
facão cruzado atrás das costas. O velho nem piscou porque o muito malandro já
sabia que o Malvado iria se apessoar assim que ele o mencionasse. Era toda uma
encenação de propósito e, se bem o Juancito e o Índio deram um respingo e todos
os fregueses das mesas vizinhas ficaram calados e apavorados com a súbita
aparição, o velho Milesi continuo falando, como se nada:
-Então,
só temos uma hora para chegar, aproximar-nos do tirano, oferecer ao almirante
Massera o encontro com a Cristal, convencer o Videla de que também há farra
para ele, ou pelo menos incentivar a curiosidade sobre o que anda aprontando o
Massera e fazé-lo descer até o carro; e ainda o Juancito garantir que, se o
Videla não aceitar as orquídeas com a bomba, a Uzi vai resolver o problema
rápido e sem mais delongas- usava uma linguagem antiga o velho Milesi;
falou tanto e tão rápido que o Diabo nem tentou pará-lo ou interromper a fala
para dar novas ordens.
Continuará.
JV. São Paulo, dezembro de 2011.
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