sábado, 14 de fevereiro de 2015

O macaco bugio-ruivo. Crônicas do Pepito


Decrepitude.

O homem comenta, distraído: 

- Que estranho, nunca tive taquicardia antes.
O filho responde: 
- Sim pai, mas você também nunca teve 64 anos antes.


Bíceps amolecendo,
abdominais, nem se fala,
tríceps idem,
esternocleidomastoideo, com rugas,
Visão boa, mediante óculos.
Gosto, paladar e mastigação, ok, via implante dentário.
Imaginação a mil, sim: a carne dura, a pele escura.
Sabedoria? pouca: só sei que não me lembro bem do que sabia.
Conhecimento? o suficiente pra sobreviver, viver em conta-gotas.

- Mas, Pepito, será que você não está exagerando? Não será só uma crise passageira? sei lá.-

- Pode ser, sim. O urologista diz que estou nota 10, ou 7, me foge à lembrança. A oftalmologista jura que a minha vista é jovem: entre 55 e 58 anos no máximo. Oortopedista assegura que chegarei aos 101 com corpinho de 80, 85. O cardiologista só sugere não assistir mais os jogos da copa. E a minha psiquiatra diz que estou no ápice da produção intelectual, mas que depois dos 64, 65,começa a decrepitude.

- Isso só se resolve ao jeito da Violeta Parra: volver a los diecisiete, não acha doutora?.
- Ok, mas cuidado, não exagera na dose!
- Eu sei, doutora, nem tão petralha, nem tão tucano, mas bem peemedebista, eu sei.


O estranho que mora no espelho

-Ok, tá, reconheço: às vezes me surpreendo ao ver a pessoa que habita no meu espelho, sim - diz o Pepito e me olha muito sério enquanto esquenta a chaleira para o chimarrão.
- Mas juro que, embora possa não parecer, não me preocupo demasiado por essas coisinhas tolas, como o frio que corre nas minhas costas quando penso o tamanho do caminho percorrido e o pouco que ainda falta caminhar: um 20, 25% do total? qui lo sá!
- Mas, e quem determina esse total, Pepito? 
- Pois eu, eu mesmo, é claro. E também não fico muito tempo olhando para o espelho. Mas não trocaria nada, nada mesmo, por uns poucos cabelos brancos a menos, ou por uma barriga mais planinha. Assim tô bom, e bem. E quem me tira o sonhado?
- Fica calmo, Pepito. Isso passa- digo e me despeço do velho amigo. A garoa está começando a cair e ainda posso perder o tren das onze.

Comprando remédios


- Nem eu me aguento, juro. Estou chato, eu sei, mas olha só- diz o Pepito e eu não sei se acreditar nele ou não. 
- Olha só, vou pegar um remédio na Voluntários da Pátria ao 7800, entre os saguis e os saruês, uns cem metros pra lá dos jacus e os tucaninhos bons, sabe?
- Sei, Pepito, e daí? o que foi dessa vez?
- Chego lá e a medicação, encomendada por telefone, não estava. Ninguém sabia de nada. Medicação? o que é isso? se eu tivesse pedido duas pedras de crack o pessoal da farmácia não iria se surpreender tanto. 

- E então, Pepito?

- Compro um barbeador, saio da farmácia e ligo para o número em letras garrafais atrás da nota fiscal: LIGUE 4003.3393. Por favor, qual a filial mais perto da Cantareira? 

- Não tenho endereços! - ruge a tendente do suposto SAC.

- Mas, moça, como assim? vocês não são da central de informações da Famosa Rede de Farmácias? 
- Não temos endereços!! - repete grunhido a robot humana, já mais indignada com a minha insistência.
- Ok, desisto e procuro por minha conta. Paro o carro e um pedinte me aborda. Os pedintes sempre me abordam: 
- Tem um dinheiro pra eu comer, amigo?
- Não, dinheiro não, mas te ofereço um almoço, ok? espera eu sair da farmácia.

Meia hora depois, e ainda sem o remédio na mão, saio pra procurar a Outra Rede Famosa de Farmácias & Drogarias, e lá o pedinte me esperando:
- E o que você fez Pepito?-
- Fui na lanchonete da esquina com ele, aquela que fica debaixo da árvore dos bugios-ruivos, sabe?
- Sei Pepito, sei, e daí?
- O senhor pedinte, uns 55 anos, me encara e fala: pode ser um McLanche Feliz?
- Pode, pode - suspiro e concedo.
- E um Cheddar Mc Melt, também pode?
É o que eu sempre digo, o Pepito é ateu, e é chato, mas se Deus existir, com certeza ele vai ser o primeiro comunista e ateu a sentar à destra do Santo Padre. E não pela caridade, não, pela paciência!

Javier Villanueva. Mairiporã, fevereiro de 2015.

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