
A “Editorial Abril” de
lá
e a “Editora Abril” de cá.
e a “Editora Abril” de cá.
Os Civita, o poder e os
governos.
“Primeiro a Thatcher, logo o Videla, na sequencia o Mesquita e o Cívita.
Os ditadores e seus escrivas, todos juntos na festa do Supay. O Bolsonaro que
se cuide, que a fila dos reacionários está andando rápido”.
Foi o que comentei
ontem, no mural de uma amiga, assim que soube da morte de Roberto Civita da
Editora Abril, chefe da ferramenta mais poderosa de opinião da classe média
brasileira, a revista Veja. Claro que não acredito no Supay –o Sete peles- mas
acredito nos fortes laços do poder político, econômico e militar com a imprensa
e os meios de comunicação.
“(...) O fato de discordar de alguém não deveria
justificar a agressão, a grosseria, a ofensa gratuita e nos momentos mais
inadequados. Minha avó dizia que "a maior mesquinhez é não esperar o
defunto esfriar para começar a cuspir sobre seu rosto." (...) Como há
gente despreparada para a democracia e a vida civilizada”-
Foi a resposta imediata de um conhecido e respeitado jornalista de São Paulo.
Tratei de lembrar,
para evitar ser tratado de “desrespeitoso” que foi a Veja de Civita quem
instaurou a crítica foribunda ao morto de cadáver quente: foi assim no
obituário de Hobsbawm, Mercedes Sosa, Chávez, Niemeier, e vários outros.
A edição da Veja de 14
de outubro de 2009, na seção datas, sobre a morte da cantora disse: “Morreu:
Mercedes Sosa, a cantora do bumbo argentina. Dia 4, aos 74 anos, de doenças
associadas ao subdesenvolvimento latino-americano, como o mal de chagas, em
Buenos Aires”.
Em dezembro do ano passado, enquanto a mídia internacional exaltava o
arquiteto Oscar Niemeyer, um dos principais colunistas da revista Veja,
Reinaldo Azevedo, preferia dizer: “Morre
Oscar Niemeyer, metade gênio e metade idiota”. E até Eric
Hobsbawn, o maior historiador do século XX foi chamado de “idiota moral” pela mesma Veja. “O
entusiasmo com a revolução bolchevique, aliás, não foi a única fonte de
tropeços morais para Hobsbawm. A conflituosa relação com as raízes judaicas
–seu sobrenome deriva de Hobsbaum, modificado por um erro de grafia– o levou a
apoiar o nacionalismo palestino e, ao mesmo tempo, a negar igual tratamento a
Israel” disse a Veja em 4 de outubro de 2012.
De imediato, no dia 5
de outubro, a Associação Nacional de História –a ANPUH- publicou nota em sua
página no Facebook, repudiando a crítica da Veja ao historiador inglês, porque o tratamento
dado a Hobsbawn foi desrespeitoso, irresponsável e ideológico: “Talvez Veja, tão empobrecida em sua análise, imagine o mundo separado
em coerências absolutas: o bem e o mal. E se assim for, poderá ser ela, Veja, lembrada como de fato é:
medíocre, pequena e mal intencionada”, afirmou a entidade.
Pessoalmente poderia -eu,
Javier Villanueva- ilustre desconhecido da mídia, escrever laudas intermináveis
sobre os mortos famosos deste último mês: Tatcher, Videla, Mesquita e Civita.
Mas é justamente o ódio político que a Veja vem insuflando o que me leva a ser
curto e grosso: não fico feliz com a morte de ninguém, mas há algumas que não
me deixam triste. E no caso da Veja (e de Civita) cabe o velho ditado espanhol:
"el que a hierro mata, a hierro muere".
O jornalista que se
sintiu ofendido pelo meu post é uma boa pessoa, e um profissional honesto. Da
minha parte, não sou jornalista nem político profissional, mas exerço o direito
à expressão mais democrática que oferece a internet, e quero permanecer honesto
em relação às minhas ideas e à minha prática. Por isso mesmo, conheço também o
respeito que sempre despertaram, em todas as áreas, profissionais que pudendo
ser conservadores ou ultraliberais, tinham a coragem de se expor aos riscos das
ditaduras; na Argentina isto aconteceu nos anos 30 e 40, entre o presidente
golpista Uriburu e os golpistas anteriores ao peronismo: um homem como o dono
do Diario Crítica, Natalio Botana, que podia apoiar o golpe contra a primeira
democracia popular (a de Yrigoyen) e logo ser perseguido pelos militares porque
apoiaba e protegia esquerdistas como Neruda e Federico G. Lorca. Algo deve ter
acontecido de lá pra cá no mundo do jornalismo porque esses nobres
proprietários deixaram de existir.
Quando falamos de
ideias não nos referimos necessariamente a ideias “extremas”, como advoga a
Veja semanalmente. Pessoalmente não lembro de ter defendido as chamadas
aberrações históricas: Stalin, por exemplo, nunca foi santo da minha devoção; nos
anos de luta revolucionária, e ainda um par de gerações anteriores à minha já
se denunciavam sem rodeios os erros fatais e os crimes de Stálin, na URSS, na
guerra civil espanhola, ou no Leste Europeu.
Não é historicamente
–nem em política- justo que, cada vez que se cheira a presença de um
esquerdista, de imediato se levantem os crimes do estalinismo, pois não só os
povos de lá os sofreram, mas também muitos revolucionários padeceram na América
Latina os desatinos dos soviéticos.
O que aqui se discute
é que a Veja, independentemente da honesta apreciação de muitos joenalistas ao
empreendedorismo dos Civita, faz culto ao ódio social e político. Entanto que o
Facebook, sobretudo, é o jornalismo rápido e panfletário dos que temos ideias
políticas e não temos o controle nem sequer o acesso aos meios de difusão
tradicionais. Críticas como as que foram feitas às capas de rancor social
explícito da Veja: mostrando mulheres pardas como o “perigo” que a atual
conformação do eleitorado oferece, ou os riscos de um jovem e engravatado
executivo de classe média terminar na pia, lavando pratos, por causa das novas
regras trabalhistas para as domésticas, etc, são mostras claras da opção
classista e política panfletária que a Veja despeja semanalmente para consumo
da classe média mais reacionária.
E o que é ser
reacionário? É ver comunismo (até soviets!) no PT, no MST, no chavismo, no
kitchnerismo da Argentina, etc, quando mesmo na gravidade dos erros que esses
movimentos cometem a diário, nada justifica confundir esses movimentos –insisto,
não partidos tradicionais, mas movimentos políticos e sociais- com as
tradicionais formações revolucionárias bolcheviques, espartaquistas, ou
trostskistas. Falar da “falta de liberdade de imprensa”, “ataques às liberdades
individuais e da propriedade privada”, etc. é o passo seguinte para justificar
o bordão de “perigo vermelho” que a Veja quer ver nos governos populares e
democráticamente eleitos na América Latina de hoje, mesmo com seus nítidos
erros e defeitos.
As edições rancorosas
contra Hobsbawm, Mercedes Sosa, Chávez ou Niemeier, em nada aportaram à
discussão política e ideológica aberta e honesta. Foram apenas isso, páginas do
mais puro preconceito e só faltou o "já vai tarde". É evidente que
essa linha editorial não é iniciativa de algum editor solto; é a linha dos
Civitta que, no Brasil ou na Argentina, sempre estiveram mais ou menos perto
dos poderes políticos, ainda nas épocas em que era necessário ser duros com a
falta de liberdades. Repito: nunca ninguém me ouvirá repetir o “viva a morte”
dos fascistas espanóis; não me alegra a desaparição de ninguém, mesmo porque as
ideias do Videla, a Th34atcher ou os donos de máquinas propagandisticas do
porte do Estadão e a Abril, seguem muito vivas e atuantes.
Um pouco de memória:
Conheço bem a história de uma editora argentina, a “Editorial Abril” criada
em 1941 por Cesare Civita, inmigrante judeu que deixou a Itália depois da aprovação
das leis raciais de Mussolini. A Abril publicava quadrinhos como “El
Pato Donald”, fotonovelas como “Idilio”,
revistas femininas, como a “Claudia”,
e semanários de atualidade política
como o “Panorama”.
“Editorial Abril” era una empresa familiar que soube usar
muito bem a vasta rede de relações do Cesare Civita na Argentina, Itália e nos
Estados Unidos. A história da editora na Argentina termina com um novo exílio
de Cesare Civita em 1976.
Como diria Walt Disney: “tudo começou com um camundongo”, também para contar
a história da “Editorial Abril” -fundada em Buenos Aires en 1941 e continuada
no Brasil- podemos lembrar do Mickey, levado à Itália de Mussolini onde Cesare
Civita começa a trabalhar na editora de Arnoldo Mondadori, em 1936, editando
revistas de quadrinhos com as personagens de Disney.
Em Buenos Aires, assim
como no Rio de Janeiro, na primeira etapa de sua viagem à América do Sul, Cesare
Civita contata judeus italianos que, como ele, haviam fugido do racismo
fascista e da guerra. Também conhece italianos que emigraram por razões econômicas
ou políticas em anos anteriores e muitos judeus, tantos os que pertenciam à
comunidade Ashkenazi –chamados na Argentina de “russos”- como com os de origem sefardí.
É esse forte tecido social,
econômico e afetivo o que permite a Cessare mudar-se de modo permanente para
Buenos Aires em maio de 1941 e, logo depois, em 21 de novembro 1941, fundar com
os dois sócios, Alberto Levi e Paolo Terni primeiro, e em 1944, Leone Amati e
Manuel Diena –todos eles judeus de origem italiana- uma pequena publicação para
crianças. O nome dela é “Editorial Abril” e o logotipo é uma árvore, símbolo
não só dos jovens, mas também de um novo inicio. O primeiro produto da Abril na
Argentina são livros para crianças; uma coleção chamada "Pequeños Grandes
Libros", que alcança um enorme sucesso: um milhão de livrinhos por ano.
Desde os inícios da “Editorial
Abril”, Civita abraçou uma atividade política antifascista que o colocou em
contato com outros intelectuais que logo fizeram parte da editora. Após o golpe
de 1943 e nos anos do governo peronista -1945 a 1955- este grupo de amigos e
colaboradores montou uma rede informal de oposição, que atuava em reuniões de
círculos privados nas casas de Mario Segre, Leone Amati e Cesare Civita para
discutir política e cultura. As reuniões eram ilegais, e muitos dos
participantes compartilhavam uma ideologia considerada por muitos como radical
e antiimperialista.
A Abril argentina foi
caracterizada, portanto, a partir das suas origens em Buenos Aires como uma
empresa particular no cenário editorial na Argentina. O que a assemelhava um
pouco ao Diario Crítica de Botana dos anos 30. Era um lugar onde se concentraba
o trabalho de alguns intelectuais socialistas e comunistas, que eram marginalizados
por suas ideias políticas antifascistas e antiperonistas; e enquanto isso, a
empresa crescia como um negócio de sucesso no campo da cultura popular de massas.
Ambas as vocações -a da militância e o empreendedorismo capitalista que claro, podem
ter uma forte ligação entre si- serão provadas num longo período de tempo que
vai da débil democracia do pós-guerra da Argentina, passando pelos golpes
antipopulares de 1955 contra Perón e as farsas eleitorais proscriptivas
posteriores, até às críticas e ataques após o retorno de Perón e o golpe de
1976.
Nesse momento, vendo a
repressão contra outros meios judeus e liberais –como “La Opinión”, periódico
argentino de Jacobo Timerman, também fundador da revista “Primera Plana”- Civita
decidiu que era urgente e necessário vender a empresa e partir para um segundo
exílio. Desta vez no Brasil.
Já desde 1945 a “Editorial
Abril” estava explorando a possibilidade de abrir uma gráfica em São Paulo.
Especialmente Civita era quem, entre os parceiros na Argentina, punha a mira no
desenvolvimento no país vizinho, temendo o peronismo que poderia –a seu
entender- tornar-se um regime autoritário. Também o mercado brasileiro lhe parecia
particularmente promissor. Como Civita escreve a Arnoldo Mondadori em novembro
de 1949 propondo-lhe uma colaboração, “no
Brasil escasseiam as boas publicações e as editoras de qualidade”.
O compromisso da
editora italiana deveria ser dado em duas etapas: em um primeiro momento
começaria a publicação e, numa segunda etapa industrial, seriam enviadas máquinas
tipográficas importadas da Itália. A atividade editorial deveria começar pelos
quadrinhos argentinos e os licenciados da Disney.
Para gerenciar a
empresa, Cesare Civita tinha pensado no seu irmão Vittorio que tinha
permanecido nos Estados Unidos, trabalhando no mundo editorial. Existia já na “Editorial
Abril” uma intensa colaboração com Mondadori na área do desenho animado e dos
quadrinhos, com trocas de produtos; e a a editora italiana parecia interessada
no projeto Brasil, mas finalmente Arnoldo Mondadori optou por não participar do
projeto que, de qualquer maneira foi lançado com dois quadrinhos, O Raio Vermelho e o Pato Donald, que apareceram na primavera-verão de 1950. Em 1952,
também apareceu a versão brasileira do “Nocturno” argentino com o nome de Capricho.
Vittorio Civita em vão
tentou obter para a Editora Abril Limitada o apoio financeiro de Nelson A.
Rockefeller ou Economic Basic Economy Corporation (EBEC). Então, entrarão na
sociedade Giordano Rossi um empresário mineiro, filho de italianos, e o grupo Vasconcelos
Smith.
Mas antes da mudança
para o Brasil em 1976, lembremos que após a queda de Perón pelo golpe militar
de 1955, a “Editorial Abril” tinha dado mais um passo, lançando a revista
feminina “Claudia” em 1957, que
seguia o modelo americano do Ladies 'Home Journal.
Mas também, desde o
início dos anos cinquenta, Cesare Civita queria publicar -ao estilo da revista
italiana da Mondadori, a “Epoca”, mas
julgava que ainda não tinha alcançado o momento.
O semanário “Panorama” nasceu em 1962, através de um
acordo com o Grupo Time-Life e outra vez com Mondadori.
Pessoalmente obtive
grande parte da minha formação política de atualidade pela revista, muitas das
quais ainda guardo em coleção no Brasil.
Os anos sessenta são os
mais dinâmicos para a empresa, não apenas pelos produtos inovadores como a Claudia e Panorama, e a conseqüente maior internacionalização por meio de licenças
de editores dos EUA e europeus, mas também é o início de um processo de
integração vertical criando uma gráfica em 1963.
Se no momento da
importação de máquinas de tipografia para a Abril brasileira, Civita recorreu à
indústria dos EUA, quando instalou uma nova fábrica moderna perto de Buenos Aires,
enviou o seu filho Carlo para a Europa e usou máquinas e técnicos da Itália e a
Suíça.
A “La Fabril
Financiera”, que até então impresso as revistas da Abril, pouco depois entra
como sócio da editora. “La Fabril Financiera” era, de fato, um grupo muito
poderoso, com estreitas relações com o poder político e militar. Se bem Civita achava
a colaboração pouco benéfica com o grupo no nível técnico, por outro lado, a considerava
muito importante na política porque seria muito útil “per coprirci le spalle da eventuali rappresaglie del governo”.
Literalmente: “Para
manter as costas quentes em caso de eventuais represálias do governo”.
Devemos lembrar que o
internacionalismo da sociedade não agradava ao nacionalismo militar argentino
nem brasileiro, e tanto Cesare como Vittorio Civita devem renunciar à cidadania
italiana e a “Abril” brasileira agora vem a ser uma “empresa tipicamente
nacional” do Brasil antes da Comisião de inquérito criada em 1966 para
investigar os meios; e ainda em 1970 Cesare Civita teve que resgatar suas participações
estrangeiras no exterior.
A “Editorial Abril”
consegue manter-se ao ritmo do desenvolvimento social e industrial, e dos assuntos
políticos e culturais argetinos. O desenvolvimento da indústria automobilística
argentina, por exemplo, corresponde ao lançamento da revista “Parabrisas” mensal em 1960; e o
crescimento da moda nativa, impulsa a produção de “Claudia”.
A tímida abertura
política dos anos do Presidente Illia -julho 1963 a junho de 1966-, finalmente,
permite semanários como “Panorama” e “Siete Días Ilustrados” em 1964; ou uma
publicação como “Adán”, a imitação light
da norteamericana Playboy, de curta duração, porque já estamos à véspera do
golpe conservador de Onganía.
“Claudia” e “Panorama” (“O diário do nosso tempo”)
são termômetros da febre argentina de modernização nos anos 60. Imitam as revistas
estrangeiras Marie Claire ou Time-Life -tal como antes foram imitados os quadrinhos
e livros infantis- argentinizando as fotonovelas dos seus modelos originais.
Neste período, aumenta o ímpeto para criar um produto que não seja só local, argentino,
mas que possam atrair leitores de outros países latino-americanos. Não só, como
no passado, as publicações da Abril argentina serão um modelo para as revistas publicadas
em português para o Brasil, mas também para os mercados dos países vizinhos,
como Uruguai, Chile, Colômbia, Peru, América Central. Abril cria uma joint-venture
no México, o Mexabril, associada ao poderoso empresário mexicano da mídia, Romulo
O'Farril.
Alrededor do tema da
celulose –a matéria prima esencial para produzir jornais, revista e livros- se
desatou um conflito de interesses entre importadores e consumidores que compõem
o papel, agravado pelo fato de que nesses anos de 180 para 0s 70, se alternaram
no poder sete presidentes diferentes e um número ainda maior de ministros e funcionários do Ministério de Economia.
E a “Editorial Abril”
desempenhou o seu lado no conflito. A ideia de criar uma papeleira surgiu com o
ditador Onganía, e depois de 1969 resultaria no Fundo para o Desenvolvimento de
Celulose e Papel de Produção pelo Decreto-Lei de agosto 1831219 de 1969).
O processo de criação
da sociedade PROIMPA, com sócios minoritários -César Doretti e Luis Alberto Rey-,
para estudar o processo técnico e de investigação das máquinas finlandesas para
sua importação, culminou três anos mais tarde, quando o governo de Alejandro
Lanusse deu autorização para operar o Papel
Prensa, fábrica de papel. Mas em dezembro de 1973 Civita, após a eleição de
Perón, teve que vender sua parte a Rey –que mais tarde cedeu a banqueiro
Graiver- por causa da forte pressão política.
Após a morte, de Juan
Perón, a sucessora, Isabelita Peron e seu ministro, chefe das bandas fascistas
das Três A, Lopez Rega, tinham uma forte razão para serem hostis à Civita. Os intelectuais
que, como sempre, encontravam asilo nas diferentes redações dos jornais e
revistas, a partir de 1969 em diante, foram mais radicais e ficaram imersos na
atmosfera de violência e nas expectativas da revolução que para muito se aproximava
e era iminente no país, tanto na visão da esquerda -peronista e não-peronista- como
no tradicional terror anticomunista dos militares.
Muitos funcionários da
Abril eram simpáticos às “formações especiais” da guerrilha marxista e da
Juventude Peronista. Para o peronismo da direita, chamado “Ortodoxo”, os
jornalistas em geral representavam uma oposição muito mais hostil à tradicional
que sempre existiu nas redações da editora.
Isabel Perón não
apreciou sequer a boa vontade da revista “Claudia” ao escolher a presidenta em
1974 como a “Mulher do Ano”. Isabel, com certeza representava algo muito distante
do proposto na revista como beleza feminina dos anos ‘60, exemplificado na
juventude e o anticonformismo dea Geraldine Chaplin. A presidenta comentou o título
de honra de saída dizendo que, “como Peron disse, o lobo vai disfarçado de
cordeiro”
Quando começou a publicação
na gráfica da “Editorial Abril” o semanaio “El
Descamisado” dos Montoneros, a tensão chegou ao ápice.
Cesare também quebrou então
o antigo clima paternalista, os benefícios e a sociabilidade promovida pelos Civita
com suas reuniões no Terraço Abril, e os presentes de Natal dos Civita foram
interpretados negativamente e rejeitados por muitos empregados. Os conflitos
gremiais se agudizaram e Civita ficou encurralado entre o jornalismo “militante”
e as ameaças da Três A. Recebeu um aviso em 1974, quando explodiu bomba do lado
de fora do prédio, e seu nome apareceu na lista dos intelectuais ameaçados de
morte pela organização de Lopez Rega. Vários jornalistas e trabalhadores da “Editorial
Abril” argentina foram exilados e alguns foram mortos e desaparecidos.
Civita mudou-se para o
Brasil e, em seguida, para o Uruguai, de onde com grande dificuldade tentou
gerir a empresa a partir do exterior com o seu filho Carlo. Também tentou
fortalecer a Abril com um aumento de capital, e outra vez, nesses momentos dramáticos
ajudaram os antigos laços. Foi um dos sócios, Manuel Diena, que participou
nesta tentativa de defender a empresa.
Após o golpe de 1976,
como muitos empresários, Civita pensou que as coisas poderiam melhorar. Mas
1976 não foi uma repetição de 1966, os militares tinham decidido “cuidar de uma
sociedade doente e impor a ela sua disciplina militar”.
A diferente evolução da
editora Abril brasileira em relação ao seu modelo original da Argentina pode ser
a contraparte do contexto económico e político. Brasil se reuniram em abril a
partir dos anos sessenta processo de desenvolvimento rápido que faz
ininterrupta hoje em um da publicação mais importante latinoamericana. Pode
supor que
foi capaz de tirar
proveito, mesmo diante das dificuldades ligadas às limitações da liberdade de
imprensa, a vantagem de melhorar as relações com o poder política. O regime
militar brasileiro foi, com certeza, para os empresários um interlocutor e um gerente
mais estável e capaz da economia que o argentino.
Voltando à polêmica:
Veja o erro, o que a
maioria dos intelectuais mais conservadores comete hoje: muitos somos contra a
Veja porque deforma, à moda da antiga Readers' Digest, qualquer realidade que
não se encaixe nos seus moldes ideológicos. Não significa esta postura crítica
estar a favor de qualquer inimigo da Veja, como a política do chavismo, por
exemplo. Podemos passar horas opinando contra muitas das políticas do Chávez e
o Maduro. Mas quem opine contra o panfletarismo de Veja, enseguida será colocado
de cara aos problemas de Cuba ou da Venezuela; é parte do preconceito da direita.
É o que a Veja vem ensinando: aumentou o preço do tomate? a culpa é da Dilma; alguém
ousou criticar os ressentimentos infantis do PSDB e do DEM? a culpa é do
chavismo; a Coreia do Norte ameaça com retaliação nuclear? é parte da política
do Dirceu.
A divulgação do velho
conceito da “cortina de ferro” ideológica quem criou nos anos 50 foi a Readers'
Digest, e quem segue nessa linha caduca e inútil hoje é a Veja. E se multiplica
nos milhares de post de corte conservador e direitista de todos os matizes que
pululam no Facebook.
Eu não creio estar
desqualificando o Videla quando digo, resumidamente que foi um genocida; está
provado pela história, isto é, por milhares de documentos e testemunhas.
Não peco por falta de
objetividade se digo, em duas ou tres frases curtas que a Thatcher foi
profundamente reacionária ao defender a selvageria capitalista, seja na forma
militarista colonial nas malvinas ou no esmagamento das greves no Reino Unido.
Não desqualifico nem a
Mesquita nem a Civita se afirmo, em três palavras, que eles serviram ao
pensamento econômico, político e social da direita brasileira e
latino-americana.
Posso, claro, proferir
palestras e organizar seminários com o tema, mas me sinto no direito de ser
curto e preciso porque ninguém que tenha estudado um pouco (e vivido, ainda
melhor) as políticas brasileiras e latino-americanas dos últimos 40 anos poderá
sequer supor que algum destes 4 personagens mencionados -e que levaram o
jornalista honesto que mencionei no início a achar um absurdo o meu comentário-
sejam representantes das aspirações populares mais democráticas.
Repito: assim como a
Veja, joia da coroa da Abril, criou a moda dos obituários odiosos, adjetivando
a torto e direito ante o cadáver quente do Hobsbawm, Mercedes Sosa, Chávez ou
Niemeier, apenas pelo único motivo de ser, aos olhos do Civita, miseráveis
comunistas (adjetivo que ninguém poderá nunca colar no Chávez, com certeza) é
um direito adquirido por qualquer um de nós neste popular FB comentar a morte
do Civita do modo que foi feito. Não acho que isso venha a ser uma contradição
na minha biografia; sempre me levantei contra as injustiças e as mentiras
organizadas e espero ter força e lucidez para continuar assim.
Como diria aquele
presidente que nunca foi “vermelho”, e que, mesmo que votado democraticamente e
por causa de dirigir um governo popular, foi deposto pela força das armas, o
presidente João Goular: "O que ameaça a Democracia é a fome, é a
miséria, é a doença dos que não tem recursos para enfrentá-la. Esses são os
males que podem ameaçar a Democracia, mas nunca o povo na praça pública no uso
dos seus direitos legítimos e democráticos”.
Javier Villanueva, São
Paulo, maio de 2013.
Existe uma extensa
biografia que aqui copio, mas remeto, sobretudo ao artigo “Dos exilios: Cesare
Civita, um editor italiano en Buenos Aires, desde la guerra mundial hasta la dictadura
militar” (1941-1976), de Eugenia Scarzanella.
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